Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

Eu só queria jantar (em paz)

21 setembro 2010 | 11:59 por Luiz Américo Camargo

O Due Cuochi do Itaim realmente é um fenômeno de popularidade. Às oito e pouco da noite, numa segunda-feira, já estava lotado, e com espera de quarenta minutos. Só havia disponível aquele assento do balcão, em frente à cozinha. E foi ali que eu me acomodei.

Eu estava ainda na entrada, quando uma senhora chegou perto de mim e, dirigindo-se ao garçom, disse: “Vou sentar aqui”. O rapaz explicou que não dava, pois ela iria bloquear a saída dos pratos. O único lugar disponível naquele pedaço era o meu. “Então, quando aquele cara (sim, ela falava de mim) acabar, eu vou sentar com meu marido”. E voltou ao bar da entrada – ela estava na espera.

Brinquei com o garçom: “Espero que ela não me expulse antes de chegar o meu prato”. Ele me disse para ficar sossegado, e que a moça, digamos, parecia ser meio perturbada.

Porém, a mulher voltou, e eu estava apenas começando o prato principal: “Garçom, quando aquele cara acabar, eu vou sentar ali com o meu marido”. repetiu. E eu continuei a comer, ainda levando na piada. Sabem os folclores em torno de coisas muito concorridas? Pessoas que dormem na porta da loja para comprar o primeiro iPad; o Soup Nazi do Seinfeld; a fila das 14h de domingo no Mocotó… Fiquei me divertindo com isso.

Mas eu ainda não havia acabado meu prato quando a mulher voltou e, desta vez, parou do meu lado e ficou olhando para mim, fixamente, como quem contempla uma paisagem. Aí não deu para aguentar: “Ô senhora, me deixa jantar em paz! Eu estou comendo!”. Ela fechou a cara e me falou assim, de forma enigmática: “Faça o que quiser da sua vida. Porque eu não fiz da minha”. Virou as costas e voltou para a espera.

Reclamei com o garçom, depois com o maître. Eles se desculparam. Não queriam cobrar pela refeição, o que obviamente não aceitei. “O senhor pode terminar tranquilo, pode pedir sobremesa. Não vamos mais deixar ela vir aqui”. Mas eu pedi só a conta. Já estava bom para uma noite de segunda.

A tal senhora, aqui entre nós, não parecia mesmo lá muito boa das ideias. E acho que, para os responsáveis pelo salão, seria mesmo uma saia justa ter de lidar com as reações imprevisíveis de uma cliente, digamos, tão ansiosa. Mas se eles disseram, já no fim do jantar, que “não deixariam” que ela voltasse ao balcão onde eu estava, por que não fizeram isso na primeira investida?

Enquanto pagava, eu ainda comentei com um outro garçom. “Acho que o Due Cuochi anda tão concorrido que está mexendo com a sanidade das pessoas”. E ele me disse. “Mais uma vez, o senhor me desculpe. Olha, eu estou há anos aqui, e nunca vi uma história como esta”.

Nem eu.

Ficou com água na boca?