Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

Flanar

24 março 2010 | 11:47 por Luiz Américo Camargo

Este breve post (o primeiro depois da longa e intensa saga do pão feito com fermentação natural) foi inspirado por uma rápida conversa de ontem. Lembrei de uma amiga que, como ela mesma diz, acha essencial que alguém tenha ‘seu canto’: seu restaurante, seu barman e, melhor ainda, seu bartender. Um lugar para ir cotidianamente, onde as pessoas sabem o que você come, o que você bebe – adaptando o cardápio inclusive às variações de humor.

Acho uma ideia interessante e imagino que muita gente se identifique com a figura do ‘restaurante / bar extensão do lar ‘. Mas jamais funcionaria comigo. Eu gosto de variar salões e cozinhas. Ir do simples ao luxuoso, do clássico à vanguarda, do trivial ao étnico. É a possibilidade de transitar por mundos, por realidades, ainda que por meros instantes. É a alegria de acertar, comer muito bem, é o risco de errar, comer muito mal.

Por mister de ofício, nem sempre vou aos lugares que quero. Vou para onde preciso ir – mas faço isso com prazer. Tenho às vezes que comer sushi num dia em que me sinto com apetite para um grelhado. Ou fazer um menu inteiro quando uma massa fresca me bastaria. Costumo brincar que gostaria de ter dois estômagos e duas horas de almoço – independentes e paralelas -, para poder provar tudo o que quero. Mas não importa. De vez em quando, claro que também cedo às minhas vontades. Mas é um privilégio que isso seja parte do meu trabalho (eu faço muitas coisas no Estadão). E, ainda que eu cultive preferências pessoais, como qualquer, é um alívio que não exista o ‘meu restaurante’. Pois minha identificação é mais com o flâneur do que com o habitué.

Nesses dias, indo ao Centro para almoçar, lembrei da época de adolescente, de universitário, quando andava frequentemente pela região para visitar lojas de discos e livrarias – sebos, especialmente. Sempre a pé, olhando os prédios, os artistas de rua, o movimento incessante, no confortável anonimato do ‘homem na multidão’. É bom viver numa metrópole, ainda que o pensamento clichê esteja sempre nos compelindo a negar essa satisfação.

Hoje, faço quase tudo com o carro – é um dado da nossa condição de habitante de São Paulo. Mas gosto da liberdade de poder entrar em qualquer restaurante, em qualquer lugar. De flanar de mesa em mesa. O próximo prato? Um virado? Um peixe? Uma preparação moderna? Não sei. E isso é ótimo.

Ficou com água na boca?