Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

Foie gras: o projeto pode até mudar (é hora das audiências)

05 outubro 2013 | 18:24 por Luiz Américo Camargo

Eis a essência da (civilizada) conversa telefônica de ontem com o vereador Laercio Benko, sobre o projeto de lei que proíbe o foie gras em São Paulo, aprovado na Câmara em primeira votação (não entendeu do que se trata? Leia o post abaixo, então). Não vou pentear muito o texto, como dizemos no jargão editorial. É informação, curta e grossa.

O parlamentar disse que está abrindo o espaço para debater o tema nas audiências públicas. Devem acontecer duas delas, até que se marque a segunda votação. Segundo ele, é preferível não ter pressa, ao menos nesse momento, e discutir o assunto em profundidade – o que, sabemos, não aconteceu, até agora. Mas ele foi além: admitiu que pode ser convencido a modificar o projeto, que se tornaria, em vez de proibição, uma espécie de exigência de “certificação do uso de foie gras consciente”.

Argumentei que, antes de qualquer proibição, seria necessário ele conhecer o trabalho de produtores que usam métodos mais sustentáveis na criação de patos. Produtores artesanais, inclusive, aqui no interior de São Paulo. Certamente os métodos praticados por esses pequenos criadores são muito diferentes daqueles utilizados no Leste Europeu (foi na Hungria que Benko conheceu, como ele mesmo diz, os horrores da gavagem).

O vereador reconhece não estar informado sobre a chamada produção ética e as novas (e mais amenas) técnicas de alimentação das aves, tanto aqui como no exterior. Não sabia, por exemplo, que os cozinheiros mais zelosos há muito evitam comprar fígados gordos obtidos a partir de gavagens mais radicais. E afirma que quer ouvir os argumentos de chefs, criadores e especialistas que quiserem participar da discussão, nas referidas audiências.

Palavras dele: “Não sou vegetariano, não sou ambientalista. Sou um cidadão mediano. Como churrasco, faço minha galinhada. Nesse assunto, estou no meio do caminho entre os chefs e os militantes das causas dos animais”.  O vereador, é importante lembrar, defende o direito de imolar animais em rituais religiosos. “Sou umbandista, faço o sacrifício de galinhas, por exemplo. É um direito meu”.

E voltei à carga em outros dois pontos: se a questão é alimentação forçada, a discussão não vai muito mais longe, a começar por frango e boi, alimentos do cotidiano? E por que a Câmara precisa legislar sobre algo que deveria ser uma escolha do cozinheiro, uma decisão do consumidor?

A título de informação, a proibição do foie gras na cidade está no mesmo pacote da proibição do uso de peles de animais. No caso deste último ponto, conta Benko, já está havendo uma mudança no projeto. “Se comer coelho é permitido, se o animal será abatido para consumo da carne, não há motivo para não aproveitar a pele”.

E o fato é que Benko pode, segundo ele mesmo, mudar de ideia e alterar os rumos de seu projeto. E trocar proibição por “certificação”. Aspas do vereador: “Eu não tenho dificuldade ideológica em transformar São Paulo na cidade do foie gras consciente. Eu sei que nesse debate vou tomar porrada dos dois lados. Mas eu quero fazer um trabalho de qualidade. Não quero fazer eu mesmo uma gavagem com esse projeto, e enfiá-lo pela goela das pessoas. Jamais pensei em ir adiante com ele sem ouvir todas as partes”.

Sobre os trâmites legislativos, devem acontecer duas audiências, reunindo as partes interessadas. Em vez de reservar uma audiência “só para gregos, outra só para troianos”, o vereador diz que prefere aproximar defensores do foie gras e opositores, “para que as contradições fiquem bem claras”. Só depois o projeto irá para segunda votação. E, caso seja de novo aprovado, será necessária ainda a assinatura do prefeito para que ele se torne lei. E que fique claro: o foie gras ainda não está proibido na cidade.

Este é o momento, portanto, de cozinheiros, artesãos e outros experts se organizarem e produzir sua argumentação. Nomes como o chef Julien Mercier, por exemplo, já vêm se manifestando a respeito.

O que vai acontecer, é óbvio que não dá para saber. Eu gostaria de destacar que, mais do que querer influenciar resultados, faço a defesa do debate esclarecido, das decisões bem fundamentadas (e não desinformadas). Defendo produtos de boa qualidade – ética, gastronômica e nutricionalmente falando. O que inclui foie gras de produtores mais cuidadosos e exclui frangos e salmões “industriais”. Defendo, também, o consumo moderado de iguarias, incluindo o foie  (a meu ver, ingredientes de luxo não deveriam ser vulgarizados, e sim, respeitados). E defendo o direito dos cidadãos em dispensar a tutela do poder público no que diz respeito à sua própria comida.

Insisto, quem sabe ingenuamente, que pessoas adultas deveriam elas mesmas decidir se vão ou não pedir couvert, se podem ou não comprar um quitute na rua. E se devem/querem, enfim, comer foie gras.

Ficou com água na boca?