Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

Frequência modulada

18 fevereiro 2010 | 20:45 por Luiz Américo Camargo

Antes de entrar na comida, vou passar pela música. Num dia desses, escutando rádio no carro, dei sorte, pulando de estação em estação: ouvi Under Pressure, com David Bowie (e o Queen), logo depois caí no último movimento da Pastoral, de Beethoven, e mudei em tempo de pegar Cheek to Cheek com Fred Astaire. Não é bom poder gostar de tudo isso automaticamente, naturalmente? Sem precisar de nenhum seletor mental que nos avise: agora você está ouvindo música popular; agora, é música erudita. Temos, felizmente, e quando queremos, uma máquina de fruição admirável, um mecanismo estético muito bem azeitado.

De forma análoga, como é prazeroso poder comer tantas coisas diferentes. Provar comida de autor num dia, um prato trivial em outro. Um quitute de manhã, uma coisa mais complexa à noite. Sinto cada vez mais estranhamento quando percebo que boa parte da discussão sobre gastronomia passa por uma espécie de óptica conflitiva. Como se o menu-degustação fosse o vilão da feijoada. Como se o sushi fosse o algoz do churrasco. Um não elimina o outro. Moderno, clássico? Há coisas boas, há coisas ruins, ponto. O pensamento binário funciona assim: ou isso, ou aquilo. Sem concessões. Eu prefiro isso; e aquilo; e aquilo outro… Parafraseando o ditado, a saúde de um apetite se mede pela capacidade de conviver com sabores diametralmente opostos. Basta que sejam bons. Natural como gostar de músicas diferentes, em momentos diferentes.

Ficou com água na boca?