Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

Garçom: um minuto de silêncio

24 maio 2013 | 11:31 por Luiz Américo Camargo

O post de sexta, tradicionalmente dedicado à música (e a outros sons) dos restaurantes, não vai falar de temáticas gastronômicas. Mas de um grande compositor e de um peculiar cantor, Georges Moustaki. Ele morreu ontem, aos 79 anos, em Nice, na França, o país que escolheu para viver há muitas décadas. Moustaki era uma espécie de figura multinacional. Nasceu no Egito de pais judeus gregos, foi criado em francês, italiano, grego, árabe e sabe-se mais que outras línguas. Conhecia até português (teve namoradas brasileiras e, por uma certa fase, foi vizinho e amigo de Jorge Amado, em Paris, na ilha de St. Louis; e se meteu,  certa vez, a gravar uma improvável versão de ‘Balancê’).

Era um autor com grande sensibilidade melódica, um letrista delicado. E cantava, a meu ver – roubo agora uma expressão de Billy Eckstine, numa velhíssima entrevista dada a Ivan Lessa – mais como um compositor do que como um intérprete de vocação inata. Procurava as notas com cuidado, emitia a voz (não muito potente) com inteligência, com um visível controle emocional. Não foi um produtor de hits, mas de quase clássicos. E deixou um repertório muito particular, de forte personalidade.

Entrevistei Moustaki uma vez, há dez ou onze anos, pelo Jornal da Tarde. Ele tinha vindo a SP para fazer parte do júri da Mostra de Cinema. Ninguém parecia dar muita bola para o criador de temas como ‘Milord’, ‘Le Mèteque’, ‘Ma Liberté’, entre outros. A bem da verdade, poucos lembravam de suas canções. Consegui marcar a conversa com facilidade, sua agenda estava tranquila, e foi um papo sereno, por vezes estranho. Ele me contou até um sonho que tinha tido na noite anterior. Não levei nenhum CD para que ele autografasse, por meros pudores profissionais. Quis saber dele sobre cinema, sobre música. E perguntei sobre uma passagem lendária de sua carreira. Um antigo encontro (na verdade, o primeiro) com Georges Brassens. Ele, como um artista iniciante. Brassens, já um mito da chanson française. Moustaki teria então se enchido de coragem e mostrado ao velho bardo uma de suas letras. Brassens teria lido e dito: “Tem qualidade. Deve continuar adiante”. Ele me disse que não foi bem assim. Foi apenas um vago “C’est de qualité”. “O “il faut continuer”, alguém inventou. Mas o fato é que eu continuei”.

Não sei dizer qual a minha canção preferida. Mas já que citei seu grande ídolo Brassens (inspirador, inclusive, de seu nome: ele nasceu Joseph Mustacchi), recomendo um tema carregado de nostalgia, Les Amis de Georges. Por outro lado, fico também na dúvida em como homenagear à mesa alguém com origens tão múltiplas: cozinha francesa, árabe, judaica ou mediterrânea? Decido isso até a hora do jantar. Mas um vinho, isso é certeza que há de ter.