Paladar

Goya e sua paleta de tons fortes

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

Goya e sua paleta de tons fortes

04 março 2015 | 19:53 por Luiz Américo Camargo

Escrever sobre restaurantes é diferente de escrever sobre filmes, discos, livros. Nem me refiro ao que há de obviamente desigual entre os temas, ou aos dilemas do gosto. E sim à possibilidade de resenhista e leitor desfrutarem do mesmíssimo objeto. Birdman ou outro título qualquer serão sempre o que seus realizadores determinaram, não importa horário e lugar da exibição. Já a comida descrita num texto fez parte de um instante fugaz: foi devorada e só um similar poderá ser pedido. Em cozinhas regulares, espera-se que o resultado seja bem parecido. Mas é comum que o prato esteja sujeito a variações de ingrediente e execução.

Goya. Sabores assertivos, sem muitas brechas para paladares infantis. FOTO: Daniel Teixeira/Estadão

É por isso que faço várias visitas antes de escrever. Para buscar uma média, construir uma experiência mais próxima da realidade mutante da mesa. Mas eis meu ponto: se já não é fácil abordar um restaurante citando um repertório fixo, imagine quando o cardápio muda bastante e poucos pratos se repetem. Eis por que, a meu ver, no caso do ainda novo Goya, vale mais tratar do espírito da coisa do que indicar esta ou aquela sugestão. (O que não significa que nada do citado aqui não poderá ser provado de novo: precisa consultar o chef.)

O Goya é o extinto Rothko. Seu cozinheiro e dono continua sendo Diego Belda e a proposta segue a de um bar gastronômico, com ares modernos. Só que, agora, a ênfase é nos bocados, pequenos pratos para compartilhar. E o acento é mais espanhol, entre citações bascas e catalãs, sem deixar de lado um cerne brasileiro. Os sabores são francos, assertivos, sem muitas brechas para preparações leves ou paladares infantis. Contudo, para citar o mito do gigante gentil, a cozinha de Belda, particularmente devotada à carne de porco, é mais refinada do que bruta, mais inteligente que simplória.

Meus pratos preferidos, pela ordem, foram: a paçoca de pato (devidamente “pilada”) com purê de mandioca; o polvo com chorizo e batata-doce, farto, tenro, com salgados, doces e picantes bem coordenados; o ovo beneditino com bacon e brioche; e a coxinha de confit de pato, já conhecida do cardápio nos tempos de Rohtko. Logo em seguida, o porco “bebinho”, costelinhas caramelizadas na cachaça, com banana-da-terra; e a alheira com ovo pochê e couve refogada. O menos impactante foi o curry de frango, tímido, de caldo ralo, mas quase justificável pelo tempurá de quiabo que o guarnecia.

A carta de drinques foi reforçada e há boas opções de cerveja artesanal. Sobre o serviço, há aspectos que poderiam ser aprimorados. Não em gentileza e hospitalidade, que são pontos bem resolvidos. De tão informal e boa-praça, entretanto, o atendimento às vezes esquece dos detalhes: a cozinha tem ou não determinado ingrediente? Tal receita sai hoje, ou não? Quais as cervejas em estoque? Não é questão de mais caretice, mas de menos improviso.

Por que este restaurante?
Porque é uma boa novidade.

Vale?
A maior parte das sugestões custa entre R$ 15 e R$ 35. Pedindo quatro ou cinco delas, para compartilhar, duas pessoas comem bem. Vale.

SERVIÇO | Goya
Onde: R. Wisard, 88, V. Madalena (facebook.com/goyabocados)
Quando: 18h/1h (sáb., 12h/1h; dom., 12h/17h; fecha 2ª)
Cc.: todos.
Metrô: V. Madalena (1,2 km)

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