Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

João

02 setembro 2009 | 14:39 por Luiz Américo Camargo

Talvez poucos conheçam ou se lembrem. Mas há uma música de Caetano Veloso chamada ‘Outro Retrato’ (do disco Estrangeiro, de 1989), cuja letra começa assim: “Minha música vem da/música da poesia de um poeta João que/ não gosta de música/Minha poesia vem/da poesia da música de um João músico que/não gosta de poesia.”

Ele fala de João Cabral e de João Donato.

Lembrei da canção num momento muito particular, fazendo uma leitura bem pessoal: minha paixão por restaurantes vem de um João que não gosta de restaurantes.

O João de que falo é meu pai. Ele morreu ontem.

João não tinha paciência para o ritual que eu tanto prezo. Sair, se locomover, entrar num lugar cheio de gente estranha, pedir coisas desconhecidas, arriscar-se, ter a surpresa de comer bem, ou o azar de comer mal… ele detestava tudo isso. Mas gostava de comida – especialmente se fosse a de minha mãe. Especialmente se fossem seus pratos preferidos.

Eu lembro de comermos bacalhau, ou feijoada, ou frango assado, quase além do limite do razoável. Enquanto minha mãe e minhas irmãs já tinham entregado os pontos e até saído da mesa, ficávamos nós dois no segundo, no terceiro prato.

E dizia assim: “Me respondam aqui. Em que restaurante se come um almoço desses em São Paulo? Não tem”. Aquele, não tinha. Era só ali – ou na casa de minha avó materna. Assim, como poderia ver algum motivo para buscar lá fora aquilo que ele já tinha na própria cozinha?

Comer na rua, para ele, era algo prático e objetivo. Algo para se fazer no horário de almoço no trabalho, num self-service ou coisa do tipo. Massa, ele nunca apreciou muito – seu carboidrato era o arroz. Etnias diferentes? Nada disso. Comida japonesa, então, jamais experimentou.
João tinha curiosidade pelo mundo. Mas desde que o mundo viesse à sua casa.

Se eu ia ao País Basco, ele estudava o tema e, antes que eu pudesse falar de Martin Berasategui, ele recitava a população de San Sebastian e de Bilbao, a renda per capita da Região, o PIB da Espanha. Se eu viajava a Paris, antes de qualquer relato sobre os bistrôs ele explicava sobre as intervenções urbanísticas do Barão Haussmann na cidade.
Mas viajar, para ele, era bobagem. Dava preguiça. “Vai viajar? Para ver o quê? Paisagem? Paisagem tem aqui”.

João gostava de dicionários e enciclopédias. E não dava bola para o Google.

Já adulto, eventualmente – em certas datas – eu levava ele (e minha mãe) para almoçar. Mas acho que ele não se divertia muito. Não ficava muito à vontade, estranhava os pratos. Aquilo tudo era bom para mim. Não necessariamente para ele.

Parei então de forçar a barra. Quando ele quisesse, iríamos. Caso contrário, eu levava um vinho ou alguma guloseima até a casa dele, e funcionava melhor. Aceitamos a divergência, em resumo.

Algo que me remete a uma certa fase de minha vida, quando eu só usava camisas brancas (porque era mais fácil, não perdia tempo escolhendo e pensando em combinações). Ele sempre me presenteava com camisas listradas, ou de outras cores – que, obviamente, eu acabava não usando. Até que um dia, em algum aniversário distante, eu abri um pacote que continha, enfim, uma camisa branca.

E assim íamos nos entendendo.

Não vou querer desfiar em um único post a relação de um pai com um filho. Afinal, como sempre explico, este é um blog sobre comida. Pois então volto ao início. Minha paixão por restaurantes vem de um João que não gostava de restaurantes. Mas gostava de comer. E de ser curioso sobre as coisas. Um legado que eu ainda preciso clarear mais, ou formular melhor, como Caetano Veloso fez com seus Joões. Neste momento, eu só sei que, sem ele, eu jamais estaria neste ofício.