Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

Lame duck?

28 fevereiro 2009 | 10:41 por Luiz Américo Camargo

O Fat Duck está fechado. Depois de quarenta pessoas terem anunciado nos últimos dias que passaram mal depois de terem jantado no triestrelado restaurante, o chef Heston Blumenthal resolveu parar temporariamente. O lugar deve reabrir na semana que vem, de acordo com o Guardian, que vem acompanhando o caso com destaque. Até lá, o cozinheiro espera ter alguma resposta para o mistério.

Já investigaram a possibilidade de mariscos e ostras estragados. Aparentemente não foi isso. Agora, analisam outras hipóteses. O curioso, diz a equipe do restaurante, é que todos os funcionários da brigada provam de tudo, de todos os pratos, e ninguém sentiu nada. Azar? Acidente de cozinha? Sabotagem?

Blumenthal, diz o Guardian, vai ligar pessoalmente para as vítimas, pedindo desculpas e oferecendo um outro jantar. Mais de quatrocentas reservas já foram canceladas. O fato acontece num momento em que se fala que o Fat Duck anda em crise, não só de criatividade, como também financeira. E a notícia do fechamento aparece justamente quando a série televisiva apresentada pelo chef, ‘In Search of Perfection’, estreou aqui, no GNT.

Já tive a oportunidade de conhecer Blumenthal. É um sujeito inteligente, divertido, sem nenhum tipo de afetação. Faz um trabalho controvertido, por vezes repudiado, mas indubitavelmente instigante. Se a noticiada intoxicação foi decorrente de um problema sanitário, do mau uso de um ingrediente, de produtos estragados, que a casa arque com as responsabilidades de melhor forma possível – qualquer cozinheiro ou proprietário responsável deve sentir arrepios diante de uma ocorrência dessas. Mas espero que ninguém use o revés do Fat Duck para atacar a cozinha inventiva. Ao que parece, o que aconteceu lá foi um problema alimentar, um acidente da restauração, ponto. Não uma prova inequívoca de que a vanguarda fracassou.

Na gastronomia, a figura do burguês do guarda-chuva renasceu na forma do reacionário que brande colheres de pau e rolos de macarrão, sempre à espreita para atacar qualquer tipo de proposta de avant-garde. Como se as coisas, as diferentes manifestações, não pudessem coexistir (Passei pelo tema no post ‘O barato, o caro, o bom’, um pouco abaixo. Seja uma coxinha, seja um prato desconstruído, valorizemos essencialmente o talento, não importa de que natureza). Então, vamos aguardar com cautela o desfecho da história. Com a esperança de que o pato gordo não vire um pato manco.