Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

Mais frescor, menos frescura

10 agosto 2014 | 22:02 por Luiz Américo Camargo

O mercado ainda está se desenvolvendo. Tudo é meio novo, ou quase isso, e, dos dois lados do balcão, está todo mundo ainda tateando. Mas acho que alguns estabelecimentos/atendentes andam exagerando nos rapapés com cervejas e pães artesanais.

É um comportamento que, em seus momentos mais extremos, me lembra os primeiros anos do vinho-comprado-na-importadora. Um cacoete que ganhou corpo naquela fase que sucedeu a abertura do mercado, no governo Collor; teve seu ápice na virada do século; e, ainda que tenha melhorado, ainda pipoca por aí. Nomeando o bicho, estou falando do esnobismo no atendimento. No jeito afetado de tratar o consumidor. Para quem vê de fora (seria bom se as pessoas pudessem se filmar, para assistir ao que há de cômico em sua conduta), é quase ingênuo, uma tolice. Para quem está ali no meio, no fogo cruzado, é apenas chatinho.

Cerveja e pão artesanais andam em alta, sabemos. Há um certo deslumbramento, imagino que passageiro, na lida com esses produtos.  Não raro, os atendentes oscilam entre a linguagem hermética do técnico e a postura empertigada do “consultor” de loja de luxo. (Eu sei, eu sei; estou traçando uma caricatura, e é de propósito).

A lógica, ou uma delas, muito discutível, seria a seguinte. “Estamos lidando com produtos finos, que não são para qualquer um. Se o cliente precisa perguntar demais, é porque não é da turma”. Mudando de ângulo: “Se o vendedor se comporta desse jeito, é porque esses produtos são muito sofisticados, talvez não sejam para mim”. Não acredito que alguém ganhe alguma coisa com isso.

Eu tenho consciência de quão complicado é acertar o ponto, o tom, especialmente quando existe necessidade de se fazer a tal “formação de público”. Isso pode até ser estendido para outros setores, outras atividades. Até para a relação entre quem escreve e quem lê. Assim: como informar sem banalizar, e sem se tornar obscuro? E, por outro lado, como fazer para não subestimar o interlocutor?

Voltemos ao varejo. Ao travar o primeiro contato com o cliente, é difícil saber se ele é um iniciante total ou se já é versado no assunto. Uma abordagem possível? Seja para lá, ou para cá, nada impede que a primeira aproximação seja cordial e desenvolvida sem jargões nem tecnicismos.

Vocês devem saber do que eu estou falando. Já perdi a conta de quantas vezes entrei em lojas de cervejas especiais e, ao ser atendido pelo rapaz de barba hirsuta e óculos gráudos – como usavam uns moleques que estudaram comigo nos anos 70, com o perdão de mais uma caricatura -, me vi cercado por um discurso cheio de hiperlupulados, dimetis-sulfetos, dulçores multifacetados, partículas em suspensão… Fora as siglas enigmáticas… O que fazer? Talvez ouvir, pedir uma tradução, tentar explicar do que você gosta. Peguei uma cena divertida, recentemente. Um casal queria uma cerveja para uma refeição à base de petiscos, era a fase final da Copa. O vendedor fez várias elocubrações, citou muitas possibilidades. O casal permanecia em dúvida. Até que ele pegou uma garrafa (que, por sua vez, estava numa caixa) da prateleira e mostrou: “Ó só”, apontando para uma foto. Os consumidores observaram a caixa, que trazia a imagem de um homem. Eles se entreolharam, deram de ombros e perguntaram, para decepção do funcionário: “Quem é?”. Era o Ferran Adrià (que assina uma edição limitada da Estrella). Ninguém se entendeu muito bem, enfim. Marido e mulher desejavam uma cervejinha diferente; ganharam uma aula, que nem compreendida foi.

Sobre o pão, o estilo não é o do hipster ultra-especialista. Mas é o do atendente mais para implicante. Numa padaria de rede internacional, presenciei o seguinte diálogo, num fim de tarde. A moça queria saber a que horas tinha saído a fornada. O rapaz disse que os pães ficaram prontos de manhã. A consumidora perguntou se havia alguma coisa mais recente. O jovem, então, virando os olhos para o alto, soltando um meio suspiro, meio muxoxo, falou assim: “Isso não importa, pois são todos pães de fermentação natural, que duram muito mais”. A visitante ficou meio ressabiada, passando as vistas pelos filões assentados nas prateleiras. Enquanto isso, o vendedor, insofrido, virou-se e foi fazer outra coisa. Pela demonstração de impaciência, talvez tenha perdido a cliente. E, tirante seu próprio pedantismo, ele certamente foi mal treinado por gerentes e proprietários.

Acredito mesmo que se trata de uma fase. Depois, sei que as pessoas ficam mais traquejadas, informadas, e passam a encarar esse universo com mais naturalidade. Pois, uma hora, se esses negócios realmente quiserem prosperar, terão de se comunicar para além do gueto (o contexto é mais amplo, envolve imprensa, escolas etc; mas, por ora, me atenho ao universo das vendas). E ter tolerância para servir um público mais amplo que o da patota de iniciados.

Acho legítimo que esses profissionais defendam com orgulho e entusiasmo a singularidade de seus produtos. Afinal, eles estão lidando com artigos feitos com uma qualidade que não é a do padrão industrial. A escala é menor, o preço é maior, tudo isso carece de uma defesa, quem sabe até de um quase proselitismo. Mas, sinceramente, afetação a gente dispensa. Pois, afinal de contas… trata-se de pão; trata-se de cerveja.  Não vamos confundir complexidade com complicação, nem frescor com frescura. Um pouquinho menos, por favor.

Ficou com água na boca?