Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

“Mesa para quantos, senhor?E qual o vinho?”

18 janeiro 2009 | 17:30 por Luiz Américo Camargo

A questão sobre a qual vou tratar vem de longe e está presente em muitos restaurantes. Mas como saí há poucas horas do Kaá (Av. Juscelino Kubitschek, 279), vou tomá-lo como exemplo. Imaginem a cena. Estou acabando de entrar, andando pelo extenso salão, ainda assimilando o projeto arquitetônico e paisagístico da casa. Eu mal sento e a carta é colocada em minhas mãos: “Já quer escolher o vinho, senhor?”. E a resposta é a de sempre: “Eu queria primeiro ter uma ideia do que vou comer. Aí, quem sabe, posso ver o vinho”. É impressionante a frequência com que isso ocorre. Um dia, tenho medo que, ao deixar o carro, o manobrista pergunte: “já sabe que vinho vai tomar, senhor?”

Se a proposta é montar uma brigada de garçons-vendedores, desses que têm de persuadir o cliente a consumir de tudo, e rápido, os ideólogos desta peculiar ramificação da arte do serviço deveriam ter clareza sobre uma coisa. Que as pessoas, em geral, chegam à mesa mais com fome do com sede de vinhos. E que, salvo por alguma exceção, a escolha da bebida se dá conforme a definição dos pratos. A menos que o visitante seja um enófilo por excelência, para quem comida é só um acessório para tintos e brancos – e, quando é assim, a maioria já chega com seu próprio vinho.

Para não me alongar, então, eu não escolhi nada pela carta. Fiquei na água mineral, como já relatei em posts anteriores. Até perguntei sobre as opções em taça, e a simpática sommelière me informou que eram só duas (um tinto, um branco), ambas do Chile. Não valia a pena – não tem valido na maioria dos restaurantes. Para já falar da etapa principal da refeição, nossa mesa provou três pratos – o meu, um confit de pato, mostrou-se apenas razoável, gordíssimo, algo enjoativo. Os outros dois, ravioli de camarão com lentilhas de Puy e namorado grelhado com gnocchi de espinafre, estavam um pouco melhores.

Por fim, um conselho que é quase um alerta. Dispense o couvert, que não vale os R$ 10 por pessoa. No cardápio, ele é descrito contendo uma cesta de pães frescos (não eram, posso assegurar) com porções (tamanho micro, menos de uma colher de sobremesa) de pesto, azeite, manteiga e sardela. Mas o pior: eles cobram de criança. A partir dos 8 anos, já entra na conta. Recuse e, quase pelo mesmo preço (R$ 30 contra R$ 33), prefira a porção de antepastos.

É um ambiente realmente muito bonito. Por isso não entendi o porquê da televisão ligada, mostrando um jogo de futebol. Só não me impressionei mais porque vou aos lugares pela comida – que, certamente, não emocionou. Mas eu me diverti mesmo no fim, ao pedir o café. Perguntei qual era a marca usada no Kaá, se seria aquela que anda se espalhando por todos os restaurantes (um ótimo sistema doméstico, sem dúvida, mas um inevitável padronizador de gostos), e o garçom disse que não. Pois era: nem o funcionário sabia, pois também não tinha entendido a pergunta. E eu, que já tinha pago por couvert de criança, acabei pagando por um café que eu não queria.
Não me pegam mais.