Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

Mudei, mudamos?

04 abril 2010 | 23:59 por Luiz Américo Camargo

Tenho feito algumas revisitas a vários restaurantes. Entre eles, endereços de que costumava gostar, onde geralmente eu comia direito. Não raro, tive algumas decepções. Nada grave. Mas sabem aquele ligeiro desapontamento, aquela sensação de defasagem entre a expectativa e a realidade? Mudei eu, ou mudaram os lugares?

Acredito que as duas coisas. Nada é estático, para o bem e para o mal. Sem contar que o fator surpresa, tão determinante em qualquer experiência estética, já não pesa na conta final. Algo que toca diretamente no nosso senso de bom, de belo, parece melhor ainda na primeira vez. É a descoberta da novidade.

Mas calma lá. Depois de um certo tempo, a gente aprende a separar o que é apenas novo, e o que é consistentemente bom. E aproveito para digredir um pouco mais.

Provavelmente por isso, em nome da preservação de certas sensações, talvez eu evite muitas vezes retomar contato com coisas que me impressionaram demais quando era garoto. Vejamos. Adorei  ‘Estranhos no Paraíso’ e ‘Down By Law’, assisti várias vezes na época de faculdade. Mas não tenho vontade de revê-los – aquela emoção inicial, libertadora, ficou lá, numa determinada memória. Da mesma forma que não quero ver Nick Cave ou Ian McCulloch (para citar só dois exemplos) ao vivo mais uma vez, ainda que músicos veteranos tenham todo o direito de ganhar a vida fazendo shows. Pois não sentirei mais o choque da primeira vez. E o mundo novo que então se abriu, não se revelará novamente.

Não que seja assim com tudo. Estou falando de emoções próprias de uma certa fase da vida.  Tenho a impressão de que poderia ver ‘O Poderoso Chefão’ e ler ‘O Grande Gatsby’ ou ‘Complexo de Portnoy’ e achá-los bons em qualquer idade. É diferente.

A comida, no entanto, me abriu algumas portas interessantes. Parei de ter medo de rever pontos de vista, de voltar atrás, de desdizer, de ir à frente. Valores, eu os tenho. Mas não sou escravo das minhas opiniões (para citar uma frase que já apareceu várias vezes neste blog, cunhada pelo grande editor Murilo Felisberto).

Assim, eu posso, mesmo, ter mudado e já não achar tão bom o restaurante que me comovia dois anos atrás. Da mesma forma como o meu gosto, há dez anos, era outro. E não que eu seja volúvel ou instável. Mas vamos burilando nossas percepções, descobrindo novos sabores, aumentando o repertório, percebendo técnicas e intenções.

A empatia com o moderno não destrói nosso apetite pelo clássico. Perder o medo do luxo não nos faz esquecer do simples. Apenas vamos aprendendo a perceber que coisas diferentes podem ser igualmente (e diferentemente!) boas, sem que para isso tenhamos de nos sentir traidores de nossas próprias convicções.

Este post meio prolixo, portanto, é só para dizer que revisitar restaurantes de que eu costumava gostar nunca é uma experiência banal, vazia de sentido. A melhor sensação é quando temos a sorte de atestar que as coisas que sempre agradaram continuam lá. O pior cenário é quando constatamos que, de fato, uma determinada casa entrou em decadência (ou, quem sabe, está passando por uma má fase).

E, por fim, há também aquela zona cinzenta em que você se pergunta: mudou o lugar, ou mudei eu? Será que estamos todos nos movendo? Será que aquele encontro entre pratos e apetites, que certo dia foi tão bom, ficou no passado? É mais ou menos como envelhecer. Você se dá conta da passagem do tempo especialmente quando percebe o efeito do tempo na face dos outros.

Mas não que eu reclame disso, não. Pelo contrário.

Ficou com água na boca?