Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

Na Irlanda, como os gaúchos

22 dezembro 2008 | 15:55 por admin

Publicado no Paladar 09/10/2008

Luiz Américo Camargo

As generalizações sobre povos e seus costumes são sempre perigosas. Por um lado, podem de nos levar à simplória perpetuação dos estereótipos. Por outro, são capazes de provocar um tal esforço de negação de preconceitos e caricaturas que acabamos por recusar o óbvio e o concreto. E, entre essas duas forças, confesso que não pude deixar de me preocupar enquanto me dirigia ao Mulligan, restaurante irlandês recém-aberto nos Jardins. E se eu tivesse que sentar num balcão apertado, ao lado de um sujeito rubicundo chamado Paddy que fuma sem parar, toma galões de cerveja e dá cotoveladas enquanto ri das piadas que conta sobre padres?

Só que o Mulligan não é um pub, nem um parque temático. É um restaurante que, claro, usa a decoração ao máximo para evocar o país que o inspira: tem fachada com revestimento de pedra, e, por dentro, móveis escuros e paredes com fotos de praias rochosas, além de pôsteres aludindo a Oscar Wilde, James Joyce e Samuel Beckett. Mas com a particularidade de que a Irlanda inventada por seus proprietários nasceu no Rio Grande do Sul. A matriz está em Porto
Alegre, de onde vieram seus cozinheiros e garçons.

Sem ninguém por perto fumando nem discutindo futebol ou catolicismo, outra surpresa: o couvert traz pão de fermentação natural e farinha orgânica feito na padaria vizinha, Pão. E, com os clichês já devidamente embaralhados, restou pedir ajuda na hora de escolher. Na Irlanda do Mulligan, faça como os gaúchos.

E pode apostar em petiscos como as asas de frango e os bolinhos de batata, fritos com competência. E se aventurar por variações da tradicional boxty (R$ 25), panqueca de massa de batata com diversos recheios (como o de carne de porco com repolho). Ou ainda pelos cozidos típicos, como o beef & Guinness casserole (R$ 44), com fartos e macios pedaços de acém feitos lentamente na panela, num molho com a famosa cerveja irlandesa – quase onipresente no cardápio, assim como suas patrícias Harp e Kilkenny, seja em algumas receitas, seja nas sugestões de harmonização. Os pratos são rústicos, sem grandes nuances de sabor, mas gostosos e bem apresentados. O que também não alinha o Mulligan às tendências dos chamados gastropubs, de onde vêm saindo chefs promissores das ilhas britânicas. E talvez bem servidos demais. “É comida para matar a fome. Os irlandeses são grandes”, explica a garçonete enquanto recolhe os pratos. Na despedida, ao mencionar a tranqüilidade geral (Paddy não estava lá), fui, digamos, alertado: “Está assim porque é meio de semana. Pode vir sábado e domingo que é bem agitado.”

Agradeço, mas evitarei.

Mulligan

R. Bela Cintra, 1.579,

J. Paulista, 3892-1284 (180 lug.)

18h/0h (sáb. e dom. 13h/ 15h e 18h/1h; fecha 2ª)

Cartões: todos

Cardápio: irlandês, muito à base de batatas e carnes variadas.

Avaliação: se a combinação cervejas potentes e pratos rústicos atrai, então vale.