Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

Na Vila Olímpia, faça como no Rio

19 agosto 2010 | 15:39 por Luiz Américo Camargo

Publicado no Paladar de 19/8/2010

No salão do Garcia & Rodrigues, o sotaque carioca, se não é predominante, é muito presente. E isso tanto entre os funcionários, muitos deles importados do Rio de Janeiro, quanto entre os clientes, provavelmente saudosos dos pães, dos doces e dos pratos do chef Christophe Lidy. Com unidades estabelecidas no Leblon, em Botafogo e na Barra da Tijuca, o Garcia & Rodrigues abriu sua filial paulistana no Shopping Vila Olímpia, há três semanas, trazendo a mesma proposta de agregar padaria, rôtisserie, empório e restaurante num único espaço, ainda que com ambientes separados.

O cardápio paulistano, que é quase o espelho do original carioca, traz muitos itens à francesa, várias massas e algumas receitas de perfil abrasileirado. Na média, trata-se de uma cozinha bem executada, saborosa, mas com certas oscilações. Indo diretamente ao que interessa, entre tudo o que foi provado, as melhores pedidas foram: a poêlée de shiitake (R$ 32), a remoulade de pupunha com camarão (R$ 32) e o caro foie gras ao torchon (R$ 79), entre as entradas. E o navarin de cordeiro (R$ 58) e o picadinho carioca (R$ 39), entre os principais.

Já em duas opções apresentadas como carros-chefes da casa, o steak au poivre (R$ 68) e o steak tartare (R$ 45), a pimenta era tão forte que o resultado final era desbalanceado. As massas, farfale ao pesto (R$ 32) e ravióli de queijo de cabra (R$ 33), também não empolgaram muito: a primeira, pela timidez do molho; a segunda, pelo cozimento excessivo. Entretanto, eu confesso que esperava mais, mesmo, das sobremesas. A mais interessante foi o tiramisù de pera (R$ 19). Mas faltou acertar na textura e no equilíbrio geral do babá ao rum (R$ 22) e do crumble de pêssego e framboesa (R$ 19).

Há um outro aspecto que é importante abordar. As porções, especialmente no caso dos pratos, são pequenas. Certamente funcionam se você provar uma entrada antes, ou mesmo couvert e entrada. Porém, para quem (por hábito ou por contenção de despesas) prefere se concentrar nos itens principais, talvez elas sejam insuficientes.

Eu, particularmente, defendo que, em geral, nossos restaurantes costumam exagerar nas quantidades. Se pusessem menos comida, evitariam desperdício, poderiam cobrar menos e possibilitariam, quem sabe, que se consumisse uma refeição completa. Mas não há como negar que o Garcia & Rodrigues é econômico na dosagem, ainda que os preços não sejam lá muito parcimoniosos.

Numa das visitas, acabei presenciando o descontentamento das massas (sem trocadilho, por favor), manifestado diretamente ao chef. Duas mesas vizinhas reclamavam das quantidades e pediram ao garçom que chamasse o responsável. Christophe Lidy então se apresentou e foi abordado mais ou menos deste jeito: “O senhor é o quê? Pelo nome do restaurante, deve ser português. Ah, é francês? Então está explicado porque os pratos são tão pequenos. São porções francesas.” O cozinheiro ouviu as queixas com atenção, sem concordar nem discordar. Mas até poderia ter dito assim aos clientes que, aparentemente, iam embora com fome: “Que comam brioche.” Não por desprezo. Mas porque os pães, fabricados ali mesmo, são de fato muito bons.

Garcia & Rodrigues
R. Olimpíadas, 360, V. Olímpia (Shop. V. Olímpia), 3841-9287.
Cc.: todos. 12h/16h e 19h/23h.
Cardápio: francês, com massas e pratos rápidos. Menu executivo no almoço, a partir de setembro