Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

Não precisa caprichar tanto

15 janeiro 2009 | 18:50 por Luiz Américo Camargo

“Por favor, bem caprichado.” Quando alguém acrescenta esse pedido ao funcionário do bar, da lanchonete, da padaria, não está solicitando para que os profissionais trabalhem melhor do que sua média cotidiana. Pedem fartura, é o costume geral. Eu, ultimamente, tenho rogado pelo contrário. “Por favor, não precisa caprichar tanto.”

É que comer sanduíche, na maioria dos lugares, virou uma espécie de prova de atletismo do maxilar. Vem tanto recheio que a mastigação chega a ser dolorida. Um sanduíche de frios e queijos pode ser uma maravilha – e o Paladar fez uma capa sobre isso no fim de 2008, com o Ilan Kow provando dezenas de combinações. Mas o equilíbrio é fundamental. É como pizza: muitas casas apresentam como vantagem o fato de cobrirem seus discos com quilos de queijos e afins. Não funciona, é assimétrico.

Existe quase um quê de ergonomia física na confecção de um sanduíche. Ele não deve ser difícil de segurar. Não pode apresentar aquela instabilidade interior (a maçaroca de recheio é tão densa que impede que um pedaço de pão se firme sobre o outro). Não deve forçar que você abra a boca doloridamente. Assim sendo, senhor chapeiro, senhor sanduicheiro, pode colocar duas, três fatias para mim, dependendo da espessura. Não dez. Eu prometo que pago o mesmo valor.

Outro dia comi um bauru no Ponto Chic (do Largo Padre Péricles). A dosagem utilizada do famoso queijo derretido da casa é uma brutalidade – ainda que seja uma tradição. Qual a quantidade certa? Faça assim. Primeiro, reduza a quantidade de fatias de rosbife. Depois, aperte os dois pedaços de pão, pressione um contra o outro. Vai ver que uma boa parte da massa laticínia irá escorrer. Pronto. O que restou, é o que deveria estar ali.

Desequilíbrio em sanduíche, eu acho, é tão grave quanto usar pão ruim. E se o sanduba apresentar os dois problemas, deixe então para uma outra hora.

Ficou com água na boca?