Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

Não venha com novidades

26 abril 2012 | 18:42 por Luiz Américo Camargo

Publicado no Paladar de 26/4/2012

“Novidades no cardápio?” Eu já intuía a provável resposta. Mas meu dever é perguntar. “Não, está tudo como sempre”, respondeu o garçom. E é provável que a maioria dos clientes do Windhuk prefira assim, sem mudanças, com as sugestões de sempre. Mas nem deu tempo de divagar à mesa: “Tem kässler, einsbein… Paprika schnitzel está excelente. Sai bastante…”, continuou o atendente.

Aberto desde 1948, o bar/restaurante de inspiração alemã continua fiel à cozinha dos imigrantes que chegaram aqui na primeira metade do século passado. Viveu o suficiente para ultrapassar a linha que separa o “velho” do “tradicional”. É verdade que a história ajuda: a casa foi fundada por Rolf Stephan, um ex-tripulante do Windhuk, o navio que saiu da Alemanha em 1939 e, por conta da guerra, jamais pôde retornar ao porto de Hamburgo; e seguiu adiante com a trajetória edificante de Valfrido Krieger, ex-funcionário que começou em 1964 e se tornou proprietário. Mas é principalmente a constância das receitas que parece cativar a clientela.

Os pratos são gordurosos, pesados, ou só apetitosos? Eu diria que eles são fiéis às suas propostas originais. E, nestes dias em que o verão parece ter ido embora, me diverti bastante com a porção mista de salsichas com salada de batata (R$ 33,70). Com o empanado bem executado e o molho picante do paprika schnitzel (R$ 47,50). E especialmente com o kässler, a bisteca de porco, com batata sautée e chucrute – a opção frita, como recomendou o garçom (R$ 57). “Cozido é bom, mas frito é mais gostoso, né?” E diante de um cardápio extenso, com goulash, steak tartare, coelho ao molho madeira, eu continuo achando os suínos as melhores pedidas da casa.

O passeio, no fim das contas, tem mais a ver com gula do que com gastronomia. Não é, quem sabe, um lugar para jantar depois de ver o filme em 3D sobre Pina Bausch, na óptica de Wim Wenders (ainda em cartaz). Pois a Alemanha do Windhuk não é a contemporânea, e sim a que ficou em outro tempo. Mas o programa também não tem nada a ver com embustes ao estilo falsa Baviera (apesar da ambientação à alpina), nem oferece riscos de, ao lado, uma mesa de comensais rubicundos começar a cantar Lili Marlene balançando canecas de cerveja.

É mais provável que os clássicos do cardápio e a senioridade da brigada de salão remexam lembranças familiares, histórias de pais e avós de uma época em que a cozinha alemã saiu dos limites da colônia e foi moda em boa parte da cidade. Embora, a bem da verdade, ali na zona sul, enclave da imigração germânica, pareça até que ela continua em voga.

Por que este restaurante? Porque é um clássico da cidade. Numa semana de visitas a novidades pouco estimulantes, que talvez não valessem o tempo dos leitores, aproveitei os dias de temperatura mais amena para reencontrar uma cozinha de pratos encorpados e restauradores.

Vale? As porções são compartilháveis, por dois, até três. Com prato, sobremesa e bebida, come-se direito gastando entre R$ 50 e R$ 100. É bom passeio.

Windhuk – Al. Dos Arapanés, 1.400, Moema, 5044-2040. 17h/0h30 (6ª, 17h/1h; sáb., 11h/1h; dom., 11h/0h30). Cc: D, M e V. Estac.: manob. R$ 10.