Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

Nem boteco nem palácio

16 fevereiro 2012 | 07:54 por Luiz Américo Camargo

Publicado no Paladar de 16/2/2012

Como se define, para além do gostei/não gostei, algo que nos parece bom? Podemos pensar em várias formas. Mas um critério que sempre me soa razoável é comparar proposta e execução, conceito e resultado – o que pode valer para estabelecimentos de variados níveis e fôlegos. No caso deste novo Da Terrinha, à parte o nome tão ingênuo, me parece que ele tem a virtude de, digamos, prometer 7 e entregar 7, ou perto disso. O que é melhor do que prometer 10 e entregar 8.

Norberto Moutinho, português que já trabalhou como sommelier e chefe de sala em lugares como Bacalhoeiro e Tasca da Esquina, dá a impressão de ter entendido o nome do jogo e detectado algo que continua sendo uma lacuna no mercado, ainda que nossa restauração à lusitana venha se diversificando. Sócio e responsável pelo Da Terrinha, ele demonstra buscar uma terceira via: montou uma casa informal, despojada, mas preocupando-se em manter uma certa delicadeza na cozinha. Algo que não se enquadra no perfil de boteco, ao mesmo tempo que foge, obviamente, do estigma do português palaciano, derivado da escola Antiquarius. Seu cardápio é conciso, entre bacalhaus e alguns pratos de carne, sua carta de vinhos cabe numa página. O essencial, contudo, para refeições que se pretendem mais ao lazer do que à experiência gastronômica.

(Pausa. Desculpem, acabou de passar um avião por aqui. A casa está na região do Aeroporto de Congonhas e, de tempos em tempos, o som de algum jato toma o ambiente. Pronto.)

Das várias coisas que provei, tudo estava bem realizado. O.k., eram petiscos, frituras triviais, receitas descomplicadas… Mas é fundamental fazer com capricho, e o Da Terrinha faz. Desde os bolinhos de bacalhau e os croquetes de carne (ambos R$ 9, a porção de 4 unidades), passando pelos muito crocantes pastéis de creme de bacalhau (R$ 11); até os itens principais, como o bacalhau à Gomes de Sá (R$ 42) e o bacalhau com natas (R$ 37) – pratos leves, equilibrados e, como se diz em Portugal, em doses bem calculadas.

(Perdão, mas é que outro avião acabou de cruzar a vizinhança. Esse era dos grandes.)

O serviço, por outro lado, ainda patina, embora seja amável. E, se é para prosseguir na comparação com esporte, lembra mais um time de futebol sem muita organização tática: a equipe se esforça, mas ficam todos só atrás da bola, sem tomar conta de suas posições. Falta mais treino, em suma. Ou, no mínimo, falta o salão funcionar no mesmo diapasão da cozinha.

Por que este restaurante? – Porque é uma novidade. E porque é uma boa sugestão para uma refeição à lusitana sem grandes pretensões.

Vale? – Da entrada à sobremesa, a refeição fica em torno de R$ 70 por cabeça, sem vinho – e sobre a bebida, a carta é bastante enxuta, com rótulos entre R$ 50 e R$ 90; não há cobrança de rolha. O valor é honesto, especialmente em se tratando de comida portuguesa em São Paulo.

Da Terrinha – Alameda dos Aicás, 1501, Moema, 5066-2569.

Ficou com água na boca?