Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

No melhor momento

19 julho 2012 | 11:20 por Luiz Américo Camargo

Publicado no Paladar de 19/7/2012

Produto bom, o Amadeus sempre teve. Numa fase em que muitos estabelecimentos penavam para obter crustáceos, moluscos e afins com mínimo de padrão, a casa fundada pelo casal Ana e Tadeu Masano foi pioneira na organização do fornecimento da matéria-prima. As ostras, de cultivo próprio, lá em Santa Catarina, figuram há tempos entre as mais regulares (no bom sentido) da cidade. Assim, ao longo de uma trajetória que começou em 1989, a casa conseguiu estabelecer uma ótima reputação com as coisas do mar. Mas, a meu ver, faltava aquele passo além. Faltava o salto que transforma um restaurante confiável num ótimo lugar.

O ambiente continua com as marcas de uma certa época de São Paulo, entre o fim dos anos 80 e meados dos anos 90: o estilo restaurante de flat (embora o prédio agora seja residencial), sem nenhum detalhe muito personalizado, com arquitetura bem comportada e, à noite, pianista dedilhando standards da MPB e da canção americana. O que vale também para uma prática que, hoje, ficou fora de moda no mercado: o estacionamento permanece como cortesia. A cozinha, no entanto, que já vinha mudando desde que a chef Bella Masano assumiu os fogões, vive agora seu melhor momento.

O couvert (R$ 12) é apetitoso, com petiscos e pequenas entradas, que podem variar conforme a época. O cuscuz paulista segue muito bem feito, equilibrado, assim como a moqueca de peixe e camarões (itens que fazem parte inclusive do almoço executivo, servido a R$ 72). A massa fresca com camarões, em molho de tomate e limão-siciliano (R$ 72), por sua vez, é outro prato arrebatador, um dos melhores da casa. Porém, eu quero falar especificamente do “menu da chef” (R$ 165), que expressa, a meu ver, o novo patamar galgado pela jovem cozinheira, filha dos fundadores.

Talvez até alguns itens acabem mudando, por conta da sazonalidade. Mas o que eu provei foi uma sequência notável que incluía: lulinhas recheadas com seus tentáculos, bacon e caju; vieiras em creme de cebolinha; bacalhau fresco com arroz de azeitonas pretas; polvo ao vinho tinto com mandioquinha cremosa e pimenta biquinho; banana ao forno com calda de tamarindo e sorvete de chocolate para encerrar. Um feliz encontro entre o bom ingrediente e a intervenção na medida, feita com sabedoria, com o único objetivo de extrair de cada elemento sua particularidade de sabor.

O menu pode ser acompanhado por vinhos, com um acréscimo de R$ 100. Agora, quer saber? Já que o restaurante dispõe de uma Enomatic, um senhor brinquedo para quem gosta de tintos e brancos, o melhor é você mesmo abastecer sua taça – embora o serviço do Amadeus seja dos mais corteses. Funciona assim. Querendo usar a máquina, o cliente recebe um cartão, onde será debitado o consumo. São 16 rótulos à disposição, em doses que variam de 30 ml a 120 ml. Se não tomar cuidado, pode até sair mais caro do que pedir uma garrafa. Só que é mais divertido.

Por que este restaurante? Porque é um clássico, talvez chegando a seu melhor momento técnico.

Vale? No caso da degustação, R$ 165 são uma considerável soma. Com algum vinho e serviço, certamente a conta passa bem dos R$ 200 por pessoa. Mas vale, pela qualidade do produto e da execução.

Amadeus R. Haddock Lobo, 807, Jardins, 11 3061-2859