Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

No principado do Tatuapé

06 maio 2011 | 06:51 por Luiz Américo Camargo

Publicado no Paladar de 5/5/2011

É o palácio, ou a choupana. Os rapapés da corte, ou a informalidade dos bares. Parece não haver muito meio-termo entre os restaurantes portugueses de São Paulo. Ou se enquadram no estilo Antiquarius ou seguem uma linha mais próxima à das tascas. No caso do imponente Bacalhoeiro, a opção é claramente pelo grupo mais luxuoso. Mas com dois aspectos mais particulares.

O primeiro é que ele não descende unicamente da casa fundada pela família Perico. Traz também certo DNA da Bela Sintra – que por sua vez, nasceu do Antiquarius. (Numa abordagem de tragédia grega, digamos que ele é filho e neto da mesma pessoa.) O segundo é o fato de ter ousado abrir fora do eixo mais badalado da cidade. E, no Tatuapé há quase três anos, o restaurante parece ir bem.

Diferentemente do que acontece nos portugueses dos Jardins, se você olhar em volta vai ver menos carros de seis dígitos na entrada. E quase nenhuma figura conhecida das colunas sociais e políticas no salão. Mas vai encontrar a usual simpatia dos maîtres de terno; o couvert variado (R$ 17), com torradas, patês, bolinhos de bacalhau, croquetes; e quase as mesmas receitas, inspiradas em várias regiões de Portugal.

A alheira (R$ 25), por exemplo, é saborosa e frita com esmero. O arroz de frutos do mar (R$ 80) é farto e agradavelmente úmido, ainda que com crustáceos um tanto cozidos demais. O bacalhau à lagareiro (R$ 115) é muito bem dessalgado e se desfaz em lâminas, como se deve. As sobremesas, como o toucinho do céu (R$ 17), também não desapontam. Na cozinha do chef Francisco Everaldo da Silva, portanto, as coisas correm com competência, e seguindo a linha das duas casas mais famosas – onde ele trabalhou. Um bom programa, mas de custo alto, em relação ao benefício. E aqui cabe um questionamento.

É provável que, atualmente, os restaurantes lusitanos de elite estejam entre os estabelecimentos mais caros da cidade. Gastar R$ 200 por cabeça, sem consumir grandes absurdos, é tão fácil quanto devorar um pastel de natas. Por que chegou a esse ponto? Uma alegação é o preço da matéria-prima, como bacalhau, moluscos etc. Pode até ser, mas a coisa vai além. Os drinques, os vinhos, os petiscos, tudo é muito caro. Mas talvez seja o reflexo de uma falta de diversidade, o que devolve ao primeiro parágrafo: ou é o boteco ou é o salão imperial.

Um cenário gastronômico saudável deve contemplar a coexistência do clássico, do moderno, do trivial, do luxuoso (e, utopicamente, haveria condições para que preponderassem simplesmente os bons, de qualquer estilo). Porém, no caso da nossa cozinha inspirada em Portugal, falta variedade e, em particular, carecemos de um certo aggiornamento, ainda que a terrinha preze mais a tradição do que a inquietação. Só que o panorama português atual tem espaço para levezas e sutilezas que não vemos aqui.

Eu costumo dizer (e escrever) que o luxo é sempre caro. Não há milagre quando se opta em trabalhar apenas com o melhor, à mesa e no serviço. Mas acho que a cordialidade lusitana, o bom bacalhau e que tais estão virando artigos finos demais, destinados a príncipes regentes. Seria nostalgia histórica?

Bacalhoeiro
R. Azevedo Soares, 1.580, Tatuapé, 2293-1010. 12h/15h e 19h/0h (6ª, até 1h; sáb., 12h/1h; dom., 12h/17h). Cc.: A, M e V. Cardápio: português clássico, com muito bacalhau

Ficou com água na boca?