Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

O barato, o caro, o bom

26 fevereiro 2009 | 09:59 por Luiz Américo Camargo

A pergunta veio quase como uma afirmação: “então, você anda interessado nos lugares baratos, né?” Era uma referência a algumas coisas que eu havia escrito recentemente, e se aplicava também ao post logo abaixo, sobre o Mocotó.

Sim, também é isso. Tudo indica que teremos um ano difícil, que viveremos um daqueles períodos em que é preciso ter cuidado com o dinheiro. É sensato indicar aos leitores opções mais acessíveis. Mas fiquei aqui pensando e quero deixar claro: me interessa o que é bom. E, a partir daí, podemos esticar para lá ou para cá o conceito de preços e valores (são coisas diferentes).

Se você come mal, é sempre caro. Minha filha adorava ir a um certo restaurante de rede, onde pedia sempre as mesmas coisas e ganhava uns brindezinhos. A comida não é gostosa. Incomoda mais pagar uma conta de R$ 80 consumindo pratos ruins, ou pagando R$ 200 para sair plenamente satisfeito? Chegamos então a um outro conceito manjado, ainda que nem sempre bem manipulado: o da relação custo/benefício.

Caso estejamos falando só de preço, claro que entre uma e outra alternativa temos uma bela diferença, de R$ 120. Mas se o ponto é o valor, pensemos. Um restaurante trabalha com escala industrial, usa produtos de qualidade mediana, reproduz receitas e pratos com procedimento de fast-food, de sabor inexpressivo. Já o outro usa ingredientes sofisticados, comprados dos melhores fornecedores. Tem uma cardápio criativo, cozinha com técnica, pratica gastronomia. E serve uma comida cheia de sabor. Quem vale mais?

Nesse aspecto, prefiro buscar o ideal de felicidade platônica e acreditar no belo, no bom e no justo a sair por aí levantando bandeiras ideológicas. Ninguém é superior só porque é barato; ou porque é brasileiro; ou porque é simplório. O caderno Paladar sempre teve esse ponto de vista. Queremos os melhores pratos e produtos, não importa de que país eles vês, se são tradicionais ou de vanguarda, se caros ou baratos. Defendemos com a mesma veemência os clássicos e a cozinha de autor. O pilão e o Thermomix. Cada comilão que rearranje fronteiras e construa sua pátria gustativa. Cada cozinheiro que faça o que quiser.

Um petisco de boteco pode ser maravilhoso, se preparado com talento, com a melhor receita, os produtos mais frescos. Um prato de cozinha complexa e criativa pode também ser sensacional, quando feito por alguém que tem estofo para criar. Temos que enaltecer os bons, os belos, os justos. Há espaço para todos os estilos e manifestações gastronômicas, ainda que eles convivam em desarmonia.

Isso também não justifica que, em nome da qualidade, alguns chefs e proprietários saiam por aí cobrando preços absurdos. Isso é assunto para outras longas discussões, mas creio que todos já estamos de acordo: nunca foi tão caro comer em restaurantes em São Paulo. Couvert, pratos, sobremesas, vinhos, os preços estão fugindo de qualquer lógica. Porém, o desvario de alguns não vai confinar minhas apreciações e opiniões ao simplezinho, ao baratinho.

Voltando então ao Mocotó. O restaurante certamente faz um trabalho muito original – e, quando chega a conta, camarada, parece mais interessante ainda. Mas se impõe pela comida, não pelo folclore ou pela ‘legitimidade histórica e social’. Portanto, em tempos de crise, não reduza simplesmente suas despesas, aleatoriamente. Gaste com sabedoria o seu dinheiro.

Felizmente, minha filha não me pede mais para ir ao tal restaurante de rede. Agora, quer comida japonesa, já provou até das maravilhas do torô. Os tais mal gastos R$ 80 já não perco mais. Mas pago contas mais altas.

Ficou com água na boca?