Paladar

O Brasil ítalo-ibérico do Hyatt

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

O Brasil ítalo-ibérico do Hyatt

02 abril 2014 | 23:20 por Luiz Américo Camargo

Toda vez que a cozinha brasileira – ou, ao menos, um recorte dela – for colocada em destaque por um grande grupo internacional, será digno de nota. Já me explico melhor, pois não estou pregando ufanismos e nem quero parafrasear Paulo Emílio Sales Gomes, o célebre crítico de cinema, que defendia que qualquer filme nacional era mais importante do que qualquer filme estrangeiro. Mas acho que o C – Cultura Caseira, inaugurado em fevereiro pelo Grand Hyatt, a despeito do nome, é um acerto. E um gesto ousado de um hotel acostumado mundialmente a lidar com modalidades de cozinha mais “internacionais”.

C – Cultura Caseira. Ousadia paulistana num ambiente internacional. FOTO: Alex Silva/Estadão

O novo restaurante ocupa o espaço que já pertenceu ao italiano Grand Caffè e teve seu ambiente todo transformado, a partir de um belo projeto de Arthur Casas. Já a concepção do cardápio coube aos chefs do hotel, os franceses Laurent Hervé e Thierry Buffeteau e o pernambucano Rui Gomes. Seu ponto de vista da cozinha nacional se expressa, claro, na seleção de receitas. Mas é mais assertivo principalmente no rigor com os ingredientes, a maioria de pequenos produtores. Contudo, não se trata de um olhar, digamos, de brasilianista. É mais a interpretação de quem percebeu que a mesa paulistana inclui pratos nascidos no País e guarda também influências italianas e ibéricas.

Entre tudo que comi, meus preferidos foram a moqueca (R$ 65), com namorado, camarões em ótimo ponto de cocção, um bom pirão e nenhuma timidez no dendê; e a caçarola de coelho à alentejana (R$ 49), com mexilhões, chorizo tipo espanhol e feijões. Num nível um pouco abaixo, gostei também do ossobuco de vitela (R$ 68, com cevada preparada à maneira de um risoto); do arroz de carreteiro com pato (R$ 41 e R$ 53, conforme a porção); e da caçarola de legumes (R$ 15 e R$ 29, com mandioquinha, inhame, mandioca). Mas acho que a panela de mexilhões (R$ 50) carece de um caldo bem mais farto e copioso.

Se no jantar prevalece o cardápio principal, ao meio-dia também é possível optar pelo bufê (R$ 82), que inclui itens frios e quentes, além de sobremesas e uma seleção de queijos mineiros, com direito a goiabada artesanal. Os pratos são finalizados na hora e há boas pedidas, sempre variáveis, como um trofie al dente com ragu de siri – embora nem tudo pareça adequado ao sistema (caso da codorna assada). Mesmo escolhendo pela carta, dá para provar à vontade as sobremesas do bufê, por R$ 20. E, independentemente do esquema, a refeição termina bem, com o café de coador da Fazenda Ambiental Fortaleza.

Por que este restaurante?
É uma novidade interessante. E porque é o olhar de um hotel internacional sobre uma cozinha de inspiração brasileira.

Vale?
É possível fazer uma refeição completa por volta dos R$ 100, sem bebidas. Mas é preciso ter atenção com vinhos, coquetéis e afins, que têm preços altos. E o café, ainda que seja muito bom, pesa na conta (entre R$ 15 e R$ 28 – a versão mais cara é a gourmand, servida com brigadeiro, beijinho, etc). É uma boa dica principalmente para quem está na zona sul. Vale conhecer.

SERVIÇO – C – Cultura Caseira
Grand Hyatt, Av. das Nações Unidas, 13.301, Brooklin
Tel.: 2838-3203
Horário de funcionamento: 12h/15h e 19h/0h (sáb., 13h/16h, com feijoada; dom., 13h/16h, com brunch)
Cc.: todos
Estac.: Manob., R$ 18

>> Veja a íntegra da edição do Paladar de 3/4/2014

Tags: