Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

O desafio de ser o novo do velho

02 junho 2011 | 12:14 por Luiz Américo Camargo

Publicado no Paladar de 2/6/2011

Há um clima de operação secreta na chegada do novo Rodeio. O maître José Bill recebe os clientes com um sorriso, mas parece tenso. Pelo rádio, ele se comunica a todo instante com o gerente Francisco Chagas. Eles controlam a fila de espera na recém-inaugurada casa do Shopping Iguatemi.

A filial da churrascaria de 53 anos abriu há poucos dias e já anda cheia. No térreo, há um bar com balcão e mesas. Para chegar ao restaurante é preciso pegar um elevador, até o oitavo andar. Mas só vai quem Bill autoriza. No almoço de domingo, a espera variava entre uma e duas horas.

Enquanto distraem a fome beliscando croquetes de carne e filé aperitivo, os visitantes gravitam em torno do maître. Querem ver em que posição estão seus nomes na lista de chegada. E talvez presenciar mais um anúncio vindo de Chagas, lá do oitavo andar: “Mesa para quatro liberada”. Eu só obtive permissão para subir depois de uma hora. Poucos dias antes, na hora do jantar, havia sido mais fácil, ainda que a casa estivesse cheia.

O shopping, o elevador, depois o salão com arquitetura de Isay Weinfeld, nada disso parece lembrar muito a tradicional sede da Haddock Lobo. Mas quando o serviço entra em ação, as coisas parecem fazer sentido. A cordialidade é a de sempre. O ritmo, ainda não. Uma blitzkrieg abatendo-se sobre a mesa: “Senhor, aqui o nosso couvert”, “o que vai beber?”, “posso servir a salada?”.

O famoso pão de queijo (incluído no couvert, R$ 23,50), por sua vez, também ainda não está como o da matriz. Em duas visitas, provando de fornadas diferentes, faltou leveza. E principalmente a textura quase de biscoito de polvilho que diferencia a receita do Rodeio do padrão “queijo em abundância” praticado por casas como Rubaiyat e Varanda (cujos pães também são ótimos). Pode parecer futilidade, já que estamos falando de uma steak house, mas não é.

De resto, a churrascaria parece já bem encaminhada na missão de clonar a matriz. Não acho e nunca achei que a virtude do Rodeio estivesse nas carnes. Os dois cortes lombares provados (ancho, R$ 72; e bife de chorizo, R$ 72) estavam bem churrasqueados, mas sem arroubos de maciez e umidade, o que eu atribuo à matéria-prima. A picanha fatiada (R$ 162, para dois), por sua vez, segue no padrão dos Jardins. O corte fininho, que desagrada muitos barbecue geeks por “não ter mordida”, segue predominante nas mesas, especialmente as de família.

Mas é notável que o restaurante tenha criado tantas guarnições e afins que, depois, acabariam copiados. Como o arroz biro-biro, a farofa com ovo, o creme de papaia… Itens que nasceram a partir de pedidos da clientela, ou melhor: da disposição do restaurante em paparicar seus frequentadores fieis. Vai no sentido inverso dos movimentos da restauração contemporânea, em que o chef é o emissor e o comensal, mero receptor.

É ótimo que o cozinheiro criativo tenha seu espaço. E é bom que ainda exista quem apenas queira agradar ao visitante. O Rodeio pertence a este segundo grupo: o cliente, em geral, tem razão. Se for de carteirinha, habitué, tem sempre.
Por que este restaurante
Porque é a nova casa de uma velha casa.

Vale?
Sem vinho, a conta chega fácil aos R$ 150/cabeça. O programa é divertido, a brigada é gentil. Mas achei dolorido.

Rodeio
Shopping Iguatemi (Av. Brigadeiro Faria Lima, 2.232, 2348-1111). 11h30/15h30 e 18h30/ 0h30 (6ª e sáb., 11h30/0h30; dom., 11h30/23h). Cc.: todos. Cardápio: carnes grelhadas e suas guarnições, pratos variados da ‘cozinha internacional’.