Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

O dez

15 agosto 2009 | 18:00 por Luiz Américo Camargo

Primeiro esclarecimento: o título do post não é uma referência ao Maradona nem trata de futebol. O tema é o grau mais alto, o máximo, o nível mais elevado.

Na fase em que estudei engenharia, tive aula de Física I (assim, com algarismo romano) com o legendário professor Fleury. Ainda que eu não entendesse muita coisa do que ele explicava, eu tinha a clara sensação de que ali, diante dos alunos, estava alguém especial – um professor acima da média. Seu vocabulário castiço, seus termos em grego, suas ideias que misturavam filosofia e cálculo integral, principios morais com ciência, foi isso que me marcou. Seu curso era difícil – eu passei raspando – e suas provas tinham fama de ser algo esotérico, intangível. Mas ele dizia: “Há professores que nunca dão a nota máxima. Eu, não: se a prova é impecável, o aluno merece. O dez existe para ser dado”.

Aguentei até o terceiro semestre e, quando caí na real que minhas melhores notas eram em sociologia e filosofia, me dei conta de que não queria (nem deveria) ser engenheiro.

Já na faculdade de jornalismo, tive um outro professor desses inesquecíveis (desta vez, de língua portuguesa). Péricles Eugênio da Silva Ramos, poeta, tradutor, ensaísta. Falava baixo, não fazia concessões de conteúdo e, se o estudante quisesse aproveitar, que sentasse perto dele e prestasse atenção. Para ele, especialista em poesia barroca, tradutor de Shakespeare e de Eliot, o grau máximo era visto de outra forma. “Ninguém merece dez. Uns poucos luminares levam nove, e olhe lá. O dez não existe”.

O fato é que, vinte anos depois, eu penso frequentemente sobre o dez, como grau, como norte, como horizonte estético – agora sim, estou falando principalmente sobre comida.

Mas será que o dez está reservado apenas à alta gastronomia?

Eu diria que não. O dez pode ser simplesmente o píncaro (com o perdão do termo), o ápice, o encontro perfeito de uma expectativa com um resultado. Aquilo que era simplesmente o melhor para aquele momento. Se já fiz refeições deste patamar em São Paulo? Acho que sim. E aí é bom entender o dez como aquilo que, dentro de um contexto, é irretocável. Por exemplo: um prato trivial, que se pretenda como tal, quando magnificamente executado, merece todo o louvor. Dez? Quem sabe.

Voltando aos dois mestres, eu acrescentaria um aspecto. Atribuir dez exige também coragem. Às vezes é bem mais fácil não tentar compreender, achar defeitos, menosprezar. Isso, logicamente, convencionando que estamos falando de pessoas que trabalham a sério. Não de quem defende interesses escusos ou simplesmente faz oba-oba.

Achar tudo ruim é tão simplista como achar tudo bom. Não há nuance nem reflexão. É cômodo, você não se compromete.

Em suma, tenho de me guiar pelos meus valores, pelos meus conhecimentos – e não me apoiar só no repertório pessoal. Tenho de ser honesto para entender por que gostei, ou não gostei. A construção desse julgamento se dá a partir do meu entendimento. E também levando em conta que estou ali representando alguém que eu não exatamente conheço – o tal do leitor -, mas cujos tempo, bolso e inteligência eu me vejo na obrigação de respeitar.

Aqueles notáveis professores já se foram. Mas eu quero terminar dizendo que acredito na existência do dez, ainda que seja muito raro. Nas minhas andanças, o que eu peço é iluminação e clareza – para que eu mesmo, na busca pelo dez, não seja apenas sete ou oito.