Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

“Ô Madalena…”

10 junho 2013 | 00:37 por Luiz Américo Camargo

Talvez ela tenha se tornado o maior clichê gastro-literário-memorialístico da história. Talvez ela tenha, na verdade, dado uma forma, um sentido, para percepções difíceis de serem expressadas. Talvez ela seja apenas um quitute de agrado quase geral. Mas o fato é que a mais célebre madeleine – a de Marcel Proust, aquela, de Em Busca do Tempo Perdido –, chegou aos 100 anos.

Leio no site Fine Dining Lovers uma reportagem abordando o assunto. Faz exatamente um século que o primeiro volume da saga foi publicado. Em O Caminho de Swann, o bolinho, devidamente sorvido com chá, acaba disparando o tal mecanismo de memória involuntária que leva o autor a reconstituir uma série de emoções e eventos de um passado distante e, aparentemente, já inacessível. O que resulta, por fim, na mais caudalosa obra da literatura ocidental.

O doce surgiu bem antes da publicação do livro (para alguns, quem sabe até no século 18). Mas é certo que estava na moda no início do século 20. E mais certo ainda que seu papel central no romance ajudou a colocá-lo ainda mais em evidência. E, desde então, a madeleine vem sendo citada e evocada nas mais variadas situações – notadamente as de nostalgia gustativa, recuerdos da comida das férias da infância etc e tal.

Mas madeleine é mesmo algo muito bom. Um tipo de gâteau simples e, ao mesmo tempo, manhoso de se preparar. Que fica bom até na fôrma de empadinha (sim, eu já fiz isso) – embora ganhe ares muito mais nobres quando feito na sua fôrma mais típica, com desenho de conchinha. A minha preferida? Já provei várias muito boas. Mas acho que, se tiver de escolher uma, vou ficar com a do restaurante londrino St. John.

Para além da potência e da assombrosa riqueza do romance Proust, a verdade é que a madeleine de Em Busca criou uma verdadeira categoria mental, que cada um adapta à sua maneira, conforme o seu repertório.

Eu, por exemplo, lembro da minha avó e de todo um panorama dos anos 70 sempre que reencontro receitas do tipo bracciola com molho de tomate (daqueles bem apurados). Porém, nunca mais topei por aí com aquele que seria, talvez, o meu maior detonador de memórias do gosto. Trata-se daquela crosta de lombo (ou frango, por vezes peru…) que grudava no fundo da assadeira. Um arrostito que, no fim das contas, era mais um “defeito especial” do que um incremento intencional. Eu me recordo que, terminado o almoço, enquanto devoravam a sobremesa, eu costumava ir à cozinha, pegar a faca e, com cuidado, arrancava aqueles fragmentos crocantes, já amargando de tão queimados.

Daria para reproduzir a receita? Só se eu resgatasse a velha fôrma de alumínio. E o forno do já malhado fogãozinho Continental. E, claro, a expertise da vecchia signora… Deixemos então essa memória em seu devido escaninho. Foi bom naquele momento, naquele lugar.