Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

O Pará real na Itália Inventada

12 março 2009 | 15:52 por Luiz Américo Camargo

Publicado no Paladar de 12/03/2009

Sou partidário da ideia de que uma refeição começa antes de sentarmos à mesa. Ela se inicia no momento em que decidimos aonde e quando ir. E adquire contornos mais visíveis no caminho – como se as ruas fossem um imenso corredor que nos leva até o salão. Por isso eu ainda não havia me libertado de um certo estranhamento de ter de ir até o Bexiga para chegar ao Amazônia, o único restaurante exclusivamente de comida da região norte na cidade. Pelo vidro do carro, na Rua Rui Barbosa, passam cantinas, padarias, imagens que nos remetem a um tipo específico de restauração. E, antes do cruzamento com a Conselheiro Carrão, quase como um ruído, aparece o restaurante, com sua fachada branca. É talvez a sensação de encontrar uma trattoria da Bela Vista na Estação das Docas, em Belém.
Que curiosa relação pode haver entre a cozinha amazônica e o estilo cantineiro? Entre uma vertente que, na opinião de muitos, vai projetar o futuro da gastronomia, e outra que, ainda que tenha clientes cativos, virou sinônimo de decadência? Quem eu encontraria lá? Bisnetos de italianos perdidos, jovens com camisetas de Che Guevara saídos da Rua 13 de Maio? Imigrantes do Norte?

Isso tudo foi antes de cruzar a porta, no número 206. Depois que você entra, de certa forma se esquece do Bexiga. O ambiente é sem luxos, quase um boteco arrumadinho, as paredes são em tom pastel, nada é carregado nem demasiado folclórico. O que combina com as (des)pretensões do proprietário, o ator Paulo Leite, que já foi dono dos extintos Tucupy e Carimbó. Ele só quer servir a comida de sua terra, os clássicos da culinária do Pará: tacacá, pato no tucupi, maniçoba, etc. Uma lista concisa de itens, feitos com autenticidade. Neste caso, não é o Norte reinterpretado, como em alguns pratos de lugares como oTordesilhas ou o Brasil a Gosto. Mas uma refeição amazônica cotidiana, com tudo que isso representa de virtudes (o sabor genuíno) e defeitos (uma certa falta de sutileza).

O começo foi com um tacacá, a receita tradicional, com caldo de tucupi, goma de mandioca, camarão seco (bem salgado) e folhas de jambu ( em porção exagerada). E foi interessante reparar como esta sopa quente e pujante, onipresente no Pará, pode cair bem no calor paulistano. Para acompanhar, sucos de polpa de cajá e cupuaçu.

Depois, vieram o pirarucu ensopado com batatas no leite de coco, um prato delicado, com o peixe bem macio; e a maniçoba, a feijoada local, com folha de mandioca trituradas e carne suína e bovina desfiadas, obviamente mais potente, com seu sabor depurado pelos muitos dias necessários à preparação.

Enquanto eu ainda tinha o amargor da maniçoba na boca, chegaram então as sobremesas, um pudim de tapioca, bem caseiro, e sorvete de cupuaçu, industrial, fabricado pela Blau’s, de Belém – quase todos os produtos são “importados” do Pará, o que pode ser mais complicado do que trabalhar com ingredientes da Europa ou do Japão. E aí eu já não me importava mais com a geografia, fosse ela a da região norte ou a da Itália inventada da Bexiga. E constatei que o Amazônia não é apenas aquele endereço para levar um amigo gringo em busca de exotismo. Mas um lugar honesto, que maneja um repertório de sabores que, felizmente, está dentro das nossas fronteiras.

AMAZÔNIA
R. Rui Barbosa, 206, Bela Vista, 3142-9264
12h/15h e 19h/23h30 (2ª e dom. só almoço)
Cartões: A, M e V
Cardápio: paraense típico, com itens como: tacacá, R$ 11; maniçoba, R$ 43 (para dois); sorvetes, R$ 7,50. Aos domingos, bufê, a R$ 45
Avaliação: é o passeio mais rápido até o Norte

Ficou com água na boca?