Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

O que é isso que você está comendo?

27 dezembro 2009 | 00:40 por Luiz Américo Camargo

Eu já não lembro muito bem onde li (foi nos anos 80), nem da formulação exata das frases. Mas é mais ou menos assim. David Bowie, o próprio, grande cantor e compositor inglês, havia chegado até a metade da década de 70 quase destroçado. Muito sucesso em algumas fases, menos em outras, excesso de doideiras, consumo brutal de álcool e de drogas. Percebeu, enfim, que não aguentaria muito mais tempo naquela toada. Decidiu então mudar de vida, de residência (ele vivia entre Inglaterra e EUA), de hábitos. Foi passar um tempo em Berlim, onde acabou produzindo três de seus principais discos (Low, Heroes e Lodger), obras que viraram referência na história da música popular etc. Certo, mas o que isso tem a ver com o blog? Eu chego lá.

Bowie alugou um apartamento modesto, adotou roupas discretas, passou a se locomover a pé e de bicicleta, e voltou a fazer suas compras. Ir ao supermercado, para ele, naquele momento, era o símbolo do retorno a uma vida mais pacata. E me recordo da seguinte frase, que reconstituo aqui ao meu jeito: “Eu precisava voltar a comprar minha comida, saber o que eu estava comendo”. Em resumo, depois de anos como um rock star malucão, cuidar de seu próprio alimento era aquilo que o devolveria à escala humana.

Não sei se, hoje, Bowie é um apreciador de bons pratos. Também não sei se ele faz a feira, digamos. Duvido que faça, e nem vem ao caso. Mas eu pego aqui o gancho do artista, nesses momentos finais do ano, para pensar a respeito daquela sua ‘conversão à humanidade’ durante a temporada berlinense. Quantas pessoas, mesmo sem a vida tresloucada de um ídolo do pop, prestam atenção ao que estão comendo?

Não interpretem essa ligeira reflexão como um discurso natureba, nem enxerguem aqui nenhum tipo de militância. Sou contra sectarismos, xiismos, mas sou a favor da comida boa, bem feita, com bons produtos. E não me importo se o cozinheiro é clássico ou de vanguarda, se o que está à minha frente é uma coxinha ou um prato rebuscado. Mas seria ótimo se as pessoas adquirissem uma certa consciência do que põem sobre a mesa.

Porcarias, bobagens, todo mundo consome, nem que seja muito de vez em quando – às vezes simplesmente não dá para comer bem. Convém apenas não abusar, pois estraga o paladar e, é verdade, não faz lá muito bem à saúde. Porém, seria interessante se, no dia a dia, todo mundo reparasse mais na qualidade do produto que compra. E tentasse cozinhar mais. Da mesma forma, seria bom se as pessoas não dessem audiência para restaurante de comida ruim (se for ruim e caro, pior ainda). Nem tolerassem qualquer coisa em nome da moda, da falta de tempo, de uma aparente falta de opção.

Enfim, lanço aqui a proposta, pensando já nas resoluções para 2010: um pouco mais de atenção com aquilo que se está comendo.