Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

O restaurante? É atrás do boteco

11 outubro 2012 | 06:43 por Luiz Américo Camargo

Publicado no Paladar de 11/10/2012

São quase 30 anos de atividade em Pinheiros. Aos sábados, é difícil conseguir lugar (quando tem jogo do Corinthians, mais ainda). E o Bar do Biu, atraindo um público que congrega de jovens com cabelo rastafári a publicitários modernos, passando por famílias numerosas em busca de receitas de sotaque nordestino, segue sempre na mesma toada. Pratos fartos, a preço camarada. Severino Gomes, o Biu, circula por todos os ambientes – o comedor propriamente dito fica nos fundos do modesto bar. Edinólia, a d. Edi, é quem cuida da cozinha, enquanto Rogerio, o filho do casal, ajuda no serviço.

Biu é paraibano, d. Edi é do interior da Bahia. Mas a concepção de cozinha da família, embora afirmativamente nordestina, acaba juntando raízes sertanejas a inspirações do Recôncavo (a moqueca de cação é outro sucesso do cardápio), com inevitáveis influências paulistanas: faz filé à parmigiana e outros clássicos do que poderíamos chamar de trivial variado. Além de ser um dos poucos lugares da cidade (ao lado de estabelecimentos díspares como o Bolinha e a Lana) a servir feijoada todos os dias.

Item mais famoso da casa, o baião de dois à moda chega à mesa numa travessa de aço inox, rústica e astutamente montado: arroz, feijão, queijo e demais ingredientes ficam por baixo; nas laterais, nacos de batata-doce e abóbora cabotcha cozidas; por cima, finas fatias de carne de sol. Um conjunto apetitoso e potencializado por um detalhe simples e inventivo: a adição de um pouco de azeite de dendê na finalização da receita.

O pernil assado é tenro e bem complementado – não sobrepujado, o que é importante – por seu molho, à base de pimentão e cebola. A carne de panela (chamada de mulatinha assanhada) é saborosa e sábia na cocção, macia, mas sem nunca desmanchar. A farofa de feijão-de-corda, independentemente de ela combinar com os demais pedidos, merece sempre ser provada. É uma guarnição com autoridade de prato. O escondidinho, por sua vez, é outro acerto da mestre-cuca, com o sal quase no limite, mas sem desequilibrar.

Uma cozinha caseira, enfim, com padrão e regularidade. Um convite à comilança que termina bem em especial com o pudim de leite, cortado diretamente de uma das geladeiras do salão– embora o manjar branco, ainda que adensado demais, não faça feio. No seu despojamento, o Bar do Biu cumpre decentemente o papel que se dispõe a desempenhar.

Por que este restaurante? Pela comida simples e saborosa. O Bar do Biu está a caminho de completar 30 anos de sucesso junto ao público que frequenta a região de Pinheiros.
Vale? Vale. Os pratos individuais – que são muito bem servidos – ficam, em geral, entre R$ 20 e R$ 30. Compartilhando, dá para pedir várias coisas e manter a conta abaixo dos R$ 50 por cabeça. Mas é importante ressaltar: é boteco, pé-sujo, sem nenhum luxo nem formalidades de serviço, sem valet. Não é para refeições sérias de negócios nem para impressionar a futura namorada. É, sim, para uma boia farta, descompromissada.

Bar do Biu  R. Cardeal Arcoverde, 776, Pinheiros, 3081-6739.