Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

O último gole

08 outubro 2009 | 08:13 por Luiz Américo Camargo

Este post surgiu não apenas de experiências pessoais. Mas foi inspirado por comentários de leitores, especialmente nos textos tratando da água e do vinho (e do chope) em restaurantes.

Trata-se do direito de decidir sobre quanto e em que velocidade beber. Do direito ao último gole.

Os garçons dos bares, apressados, empolgados com a possibilidade de servir infinitas rodadas de bebida, cada vez mais nos negam a satisfação do golpe final, daquela virada derradeira e vigorosa que esvazia o copo. Pois eles já praticamente arrancam o chope da mão do cliente quando o liquido mal passou da metade. Dizem até que a intenção é boa – para não esquentar. Pense então: no fim, você paga três, quando, na prática, bebeu dois. E, pior. O serviço afobado tolhe o prazer do último gole.

Agora, o vinho. Eu, por exemplo, acho interessantíssimo apreciar aquele aroma de fundo de taça, quando sobra apenas uma gota. É mais uma forma de tenta esquadrinhar um vinho. Mas não deixam você ficar de copo vazio: a reposição é constante, implacável, quase em ritmo de fast-food.

Eu sou obrigado, então, a dizer não. Por favor, deixem que eu sorva da bebida que há em meu copo até o fim. Deixem que eu investigue e fareje o que há no fundo do receptáculo quase vazio.

O último gole é um direito do comensal. Tão sagrado quanto o último cigarro diante do pelotão de fuzilamento.

Ficou com água na boca?