Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

Os nuevos franceses?

25 outubro 2011 | 12:37 por Luiz Américo Camargo

Não é implicância. É constatação com base em observação, ainda que com uma carga de subjetividade.

Acho que alguns restaurantes espanhois da cidade, notadamente os mais modernos, andam exagerando no salamaleque, no over-serviço. Essas casas, a meu ver, têm vários méritos. O principal, entre eles, o aggiornamento daquilo que se entendia como verdade única da cocina española por estas bandas. Trouxeram repertório que o grande público não conhecia, vieram com outro aporte técnico, com outras propostas – simplesmente para mostrar à audiência que os horizontes ibéricos iam além de paellas e pucheros (nada contra estes pratos; mas diversidade é importante).

Porém, conscientes talvez demais desse papel renovador, alguns lugares estão pesando a mão no atendimento, no aparato. E servindo tapas e afins com mil mesuras; explicando demais cada item servido (mesmo quando se trata de um prosaico aspargo); complicando o que poderia ser simples.

Abri com toda essa peroração para, enfim, para fechar com o seguinte raciocínio. Já afirmei, tempos atrás, e não mudei de ideia: parece que os espanhois de SP são os novos franceses. Explico. Por uma distorção de mercado, de leitura do público, de posicionamento, francês virou sinônimo de lugar chique e caro. Isso vem de décadas, a ponto de até os chamados bistrôs acabarem resvalando nos cacoetes dos restaurantões – criando estigmas e limitando seu público. Portadores de uma bandeira associada à finesse, à civilização, ao código mais elevado de refinamento gastronômico, os ‘restaurants’ paulistanos (e os clientes, e a imprensa…) torceram o pepino de tal modo que demorou para começar a desentortar. Levou muito tempo para entendermos que o modelo do bistrô é despojado, descomplicado…

Meu receio é este. Que os nuevos espanhois acabem se impondo mais por estarem em sintonia com o que é cool (ainda que essa onda já tenha saído do seu auge) do que propriamente pelo prazer da comida.  E que, no futuro, a associação mais automática com a cocina seja com a pompa – como, por muito tempo, foi o estigma dos franceses.