Paladar

Patrimônio preservado à mesa

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

Patrimônio preservado à mesa

14 maio 2014 | 22:00 por Luiz Américo Camargo

“Se o Casserole fechar, a gente faz um movimento, organiza um protesto.” Nem sei quantas vezes já ouvi esse tipo de comentário em muitos anos. A síntese é a seguinte. Não importa se o mercado da restauração é incerto, vive de subidas e quedas, nutre-se de modismos, é caudatário da atividade imobiliária: no mais tradicional bistrô da cidade, patrimônio paulistano, ninguém podia tocar. De fato, ninguém tocou. Porque, acima de tudo, o Casserole soube se cuidar.

Poucos restaurantes foram tão hábeis em preservar a própria lenda como a casa fundada em 1954 por Roger e Fortunée Henry – e, desde 1987, conduzida pela herdeira Marie-France Henry. Já houve momentos em que a degradação da região central pareceu um perigo incontornável. Já vi a cozinha em momentos menos felizes, visivelmente cansada pelo desgaste do cotidiano; ou titubeando entre o zelo pelo clássico e os acenos do contemporâneo. Na atual fase, existe um equilíbrio notável entre manter a antiga atmosfera e se abrir para novos ares.

No Arouche. La Casserole mantém a boa forma aos 60 anos. FOTO: Robson Fernandjes/Estadão

Aos 60 anos, completados agora, o Casserole está lépido e fagueiro. Basta presenciar seu almoço durante a semana, lotado por gente que trabalha nos arredores, especialmente figuras do poder público (semanas atrás, numa visita ao meio-dia, contei pelo salão mais advogados e juízes famosos do que no julgamento do mensalão). Ou tentar uma mesa às 23 horas de sexta, com forte chance de pegar fila de espera, formada inclusive por casais jovens. Ou ainda aproveitar o almoço de sábado no esquema “boteco francês”, com direito à coxinha de pato (R$ 17), escondidinho de coq au vin (R$ 39) e um ótimo picadinho (R$ 45).

Novidades à parte, eu continuo fazendo questão de começar pelo couvert (R$ 10 no almoço, R$ 14 à noite), sempre com pão crocante, comprado desde os anos 70 na padaria vizinha, e pela terrine do dia (R$ 27,50). E de me refestelar com o steak tartare (R$ 62) preparado à mesa, calmamente, servido com ótimas fritas. E como não se divertir com o confit de pato (R$ 79), feito com o devido apuro, ou com o delicioso cassoulet (R$ 59 para um, R$ 79 para dois, aos sábados)? Além do mais com o atendimento de um sommelier como Sebastião Martins, o Tom, um entusiasta capaz de pinçar as melhores escolhas para cada ocasião?

Olhando em retrospectiva particularmente nos últimos 20 anos, eu mesmo achei que, em alguns momentos e para além da comida, o decano bistrô do Arouche correu o risco de se tornar apenas uma trincheira. Um símbolo de resistência pelo centro, pelos estabelecimentos clássicos, pelo respeito a uma tradição. Contudo, o melhor é constatar que, mais do que nunca, ir ao Casserole não é dever cívico, é um prazer.

Por que este restaurante?
Porque é um clássico, que chega aos 60 anos caprichando na cozinha, no ambiente e no serviço.

Vale?
O executivo custa a partir de R$ 49 (com queijo e uma taça de vinho, R$ 64). À la carte, uma refeição completa sai entre R$ 100 e R$ 150, sem bebidas. Vale. (Até 11/6, entre terça e quinta, serve menus comemorativos concebidos por chefs convidados, como Erick Jacquin e Julien Mercier, a R$ 185.)

SERVIÇO – La Casserole
Largo do Arouche, 346, Centro
Tel.: 3331-6283
Horário de funcionamento: 12h/15h e 19h/00 (sáb., 13h/16h e 19h/1h; dom., 13h/17h; 2ª fecha)
Cc.: todos
Estac.: manobrista R$ 10 e R$ 14 (jantar)

(Obs: por um engano do colunista, o nome dos fundadores foi escrito erradamente na versão impressa; peço perdão aos leitores e, especialmente, à família Henry)

 

>> Veja a íntegra da edição do Paladar de 15/5/2014

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