Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

Qual o próximo prato?

20 abril 2013 | 08:40 por Luiz Américo Camargo

A inflação voltou à pauta do dia. Não acho exagero debatê-la, acho profilático, digamos. A estabilidade de preços é uma conquista da qual não devemos abrir mão, radicalmente. Puxando aqui para a nossa seara, lembro do tempo em que comer um salgado numa lanchonete poderia custar uma coisa de manhã, e outra (mais cara) no fim da tarde. É assustador, não?

Estamos longe disso, eu sei. Mas tomates (cuja situação foi falada à exaustão, no limite da caricatura, o preço até já recuou) e outros produtos estão realmente ficando mais caros, para além da sazonalidade. E, não de agora, mas já de algum tempo, temos acompanhado um notório processo de alta nos preços dos cardápios (em outros setores também).

Concomitantemente, muito tem se falado em queda no movimento de muitos restaurantes. Não está fácil, mesmo. Eu mesmo comentei, há poucas semanas, sobre uma possível tendência de retorno ao ‘bairrismo’, no sentido mais literal. A soma dos fatores não é de se desprezar. Preços altos, segurança (os arrastões deixaram marcas), trânsito, lei seca (e táxis caros) viraram motivos para pensar bem antes de sair de casa. Comer perto do próprio quintal, portanto, poderia ser uma alternativa. Por um tempo, quem sabe – esses movimentos são pendulares.

Acho que estamos no meio de uma reacomodação de camadas, vendo o início de uma nova disposição do terreno. Se teremos por aí o aprofundamento de uma crise (o que seria péssimo) ou um mero movimento de retração de demanda, que tudo isso seja – para o usar o clichê do economês – em nome de um freio de arrumação.

De minha parte, continuo a defender a ideia do valor, que é o retorno que obtemos por aquilo que pagamos por uma refeição (em São Paulo, essa relação não anda nada equilibrada). Um critério que já uso há alguns anos, e que me alerta contra as simplificações excessivas. O caro – como podem levar a crer empreendedores que têm aberto casas com investimento perigosamente milionários, digamos – não é irreversível nem inevitável. O barato, por sua vez, também não é a verdade absoluta (embora não nos leve à falência). Vamos é exigir mais qualidade, vamos em busca do bom. É ótimo ter o simples para o cotidiano; o étnico, o experimental, para variar; o restaurante mais gabaritado, para alguns momentos; o luxo, para ocasiões especiais.

Dogmas podem funcionar para algumas doutrinas. Para a gastronomia, eles não fazem bem.

Ficou com água na boca?