Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

Que cheiro é esse? Trufa?

22 novembro 2012 | 06:30 por Luiz Américo Camargo

Publicado no Paladar de 22/11/2012

Não sei qual a conjunção geográfica, temporal. Mas o fato é que duas casas identificadas com um dito “estilo de vida de Saint Tropez”, ambas de redes internacionais, aportaram na mesma rua, na mesma época. O Bistrot Bagatelle está no nº 950 da R. Padre João Manuel; a Brasserie des Arts, no 1.231. Vou tratar só da primeira (a segunda, recomendo mais a quem aprecia drinques e clima de nightclub).

O Bagatelle ocupa o mesmo imóvel que foi do Boa Bistrô, restaurante de Tatiana Szeles. A chef também participa do novo empreendimento, ao lado de outros sócios, entre eles Guilherme Chueire. Trata-se, em essência, de uma balada (ou, quem sabe, uma pré-balada), especialmente à noite. No almoço, é mais tranquilo. Mas a vocação da casa é a tal badalação, com clientes do jet set, ou aspirantes.

Você observa uma parede, vê estampados Marlyn Monroe e Karl Lagerfeld; olha para outra, percebe Kate Moss e David Bowie. Depois de um certo horário, tem DJ. Portanto, praguejar aqui contra a música alta, o falatório, a escuridão, é mais ou menos como ir ao Izakaya Issa e reclamar da carta de vinhos ou da ausência de bife de chorizo com papas fritas. Então, sigamos.

O cardápio é sucinto e destaca standards franceses, na média bem feitos. Mas com um apreço por “trufados”, presentes em vários itens, que acaba afetando o resultado. É um tal de aroma de trufas passando para cá e para lá, cada vez que um garçom cruza as mesas… A adição desses produtos é feita por intenção gastronômica ou só para dar “status” ? O que pode ser mais chique num clássico de bistrô do que a boa matéria-prima, do que a execução precisa, o sabor exato? O risco é sempre de o acessório ganhar mais peso que o essencial.

É o que acontece com o tempero do tartare de boeuf (R$ 26), predominante demais; ou mesmo com o molho – trufado também – do poulet rôti (R$ 44) com cogumelos e batatas, um galeto de carne firme, com cocção mais na linha rosé à l’arête, sutilmente rosado. Mas sugestões como as moules et frites (R$ 38), o filé ao molho béarnaise (R$ 44) e o steak au poivre (R$ 35) são honestas. E as batatas fritas, diga-se, são bastante boas.

A brigada de salão, por sua vez, ainda está meio perdida. Tem aquela dinâmica de time de futebol que corre atrás da bola em vez de guardar posição. Mas é simpática e educada. Seja na tentativa de explicar os pratos na penumbra e com barulho, seja num socorro providencial ao cliente: ao meu lado, uns amigos conversavam de pé, efusivamente, dando umas resvaladas na minha mesa. Não falei nada. Um garçom percebeu e pediu para que eles fossem mais para o canto. Não funcionou e a turma voltou à carga. (Pensando bem, acho que eles só queriam socializar – e eu, jantar). Surgiu então o maître e deslocou delicadamente o grupo para um outro lado. Trabalho fino. Coisa assim… de Riviera Francesa.

Por que este restaurante? Porque é uma novidade.
Vale? Se seu interesse é só a comida, vá no almoço. Se sua vontade é por clássicos do universo bistrô/brasserie, peça os itens mais básicos. Sem bebida, a conta fica abaixo dos R$ 100. Dá para arriscar.

Bistrot Bagatelle. R. Padre João Manuel, 950, Jd. Paulista, 3062-5870