Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

Questão de método

01 maio 2010 | 15:21 por Luiz Américo Camargo

Tentei jantar no Poivre, o ex-Pimentel, aberto há pouco tempo na Vila Olímpia. Digo tentei porque as coisas acabaram não dando certo. Liguei para saber se tinha lugar, como estava o movimento (já era tarde) e fiz uma reserva. Mas cheguei cinco minutos atrasado, e passaram minha mesa adiante.

Acontece? Acontece, já vi muito disso, e é sempre chato. Soube  do ocorrido ainda na calçada, pela moça que controla a entrada e o fluxo dos assentos. “Vocês podem esperar uns quinze minutinhos?”. Esperamos, apesar de o pequeno balcão estar ocupado e de não haver exatamente um lugar para acomodar quem aguarda sua vez. Ficamos perto da porta da cozinha, só que meio em alerta, sempre fugindo da possibilidade de sermos atropelados por um garçom.

Os quinze minutos viraram trinta. Observamos o que acontecia nas mesas, as pessoas estavam comendo, a maioria no meio da refeição. Perguntei de novo à moça: “Isso aqui vai demorar, não é mesmo?”. Ela disse: “É, acho que vai”. Repliquei: “Então, por que você nos falou em ‘quinze minutinhos’. Era só ter dito a verdade lá na entrada. Assim, eu nem deixava meu carro com o manobrista”.

Examinamos de novo os comensais. A casa só tem uma mesa para dois. As demais são para quatro. E, no entanto, muitas delas eram ocupadas por casais. Havia uns dez lugares ociosos, portanto. E com gente na espera. É uma opção da casa fazer assim. Mas será que o proprietário não percebe que ele está perdendo a chance de acomodar mais clientes? Bom, é uma questão de método.

Em geral, eu tento sempre fazer reserva antes de sair. Mas quando não dá, também não tenho grandes dramas em esperar. É simples: se eu preciso, se quero muito visitar o lugar, eu fico. Caso contrário, vou para outro restaurante. Para isso, contudo, conto sempre  que os atendentes estejam sendo sinceros. Não há problema em superestimar a fila. É válido, sim, prever um tempo maior, até porque ninguém é obrigado a adivinhar em quantos minutos um grupo vai pedir a contar e sair. Só acho chato ludibriar o visitante. Outra questão de método.

Quando completamos quarenta minutos de pé, sempre driblando as potenciais trombadas de garçons com bandejas, peguei o celular e dei uma olhada em quem estava aberto na região. Decidimos então ir embora. Um dos garçons, genuinamente condoído, pediu para que ficássemos: “Já vai sair uma mesa, senhor”. Ao passar pela recepcionista, disse que ela deveria informar melhor os clientes, que a condução dela tinha sido equivocada, desde o início. Ela não deu muita bola e, honestamente, não acho que ela fez por mal. É apenas o velho problema das brigadas mal treinadas, do carência de profissionais qualificados.

Lá na rua, morri com R$ 15 do valet, sem ter comido. Perdemos quase uma hora, passamos irritação. Enquanto aguardávamos o carro, o garçom reapareceu: “Senhor, por favor, fique. A mesa já liberou”. Eu agradeci, sinceramente. Uma hora eu volto, isso é do meu ofício. Mas quem não tem o dever de ir a todos os lugares, se passar por uma dessas, acho que não volta, não.

Ficou com água na boca?