Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

Refazer

10 fevereiro 2011 | 18:00 por Luiz Américo Camargo

“Você faz as coisas como se nunca fosse morrer? Ou como se fosse morrer a todo instante?”

Se não me engano, li este questionamento em ‘Zorba, o Grego’ (faz muito tempo). Era alguma das histórias narradas pelo personagem-título – entre um e outro naco de queijo de ovelha e solos de santouri -, com aqueles embates e diferenças que surgiam a todo instante entre ele e seu patrão. É interessante pensar a respeito, ainda que as duas proposições caminhem numa mesma direção. A mensagem? Na dúvida, faça o que deve ser feito, e pronto.

Lembrei disso porque, às vezes, acho que me posiciono diante de uma refeição como se ela fosse a última. E às vezes acho que me lanço como se eu tivesse décadas e décadas de almoços e jantares pela frente. Não sei e não saberei qual é a alternativa certa – até porque tanto pode ser isso, como pode ser aquilo, como pode ser uma outra coisa. É mais um jogo de ideias e sensações do que algo realmente importante. É mais estética do que ética.

Porém, independentemente de fatalismos ou de delírios de eternidade, acho que me coloco diante de cada novo prato como se aquela pudesse ser uma refeição redentora. A melhor, a mais reveladora, aquela que me acenderá as luzes definitivas. Seria só um resquício do pecado original, uma nostalgia do paraíso perdido?

No fundo, sei que sou movido por uma eterna e utópica busca pelo bom, pelo belo, pelo justo. E isso não significa que minha fome seja linear, ou melhor, retilínea. Há o momento de comer o trivial, há a hora do luxo, há o clássico, e a vanguarda. E é preciso estar atento para, como já escrevi antes, não ficar desejando que macieira dê laranja. É fundamental entender a proposta e julgar o resultado. Ajustar o foco entre desejo e realidade.

Cabe aqui um ponderação. Do que jeito que estou falando (digo, escrevendo), parece que o ato de comer é um drama, é uma ópera, que “há uma gota de sangue em cada refeição”, com o perdão de Mário de Andrade. Não é isso. O processo é mais estimulante do que opressivo.

Foi preciso, então, ir à raiz latina da palavra para chegar ao fecho desta ideia (e deste post). E pensar sobre algo óbvio,  que estava ali na mesa, quase como um sous-plat: a cada refeição, eu (me) refaço. Não é este um dos espíritos da coisa?

Assim, não é ótimo ter a sensação de que poderemos sempre refazer alguma coisa? Uma nova chance. Um novo prato. Uma nova vida. O que não significa que as expectativas serão atendidas, que a fome seja aplacada. Mas é a possibilidade de ir em frente. Isso me condena ao inatingível ou simplesmente me lega o privilégio de renovar as esperanças cada vez que eu me acomodo numa mesa (ou num balcão)?

Tanto faz. Não comi bem hoje? Quem sabe amanhã.

Pois refectio é reparo, é restauro, é refação. Ou, se preferirem, é só comida.

No próximo post, eu volto menos prolixo, ok?

Ficou com água na boca?