Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

Refeição barata?

22 fevereiro 2009 | 10:50 por Luiz Américo Camargo

Esta é uma história verídica. Só não vou contar onde aconteceu.

Sábado à noite, em pleno carnaval. E tive a exótica ideia de ir jantar com minha mulher. Verifiquei quem estava aberto, escolhi o lugar e fomos. Ao chegarmos, casa completamente vazia, só nós e os funcionários.
Sentamos na parte externa, vimos o cardápio e escolhemos. Eu havia levado um vinho, o Borgueil Trinch 2006, que estava ótimo, sugestão do amigo Jacques Trefois. O salão, contudo, não estava de todo vazio. A alguns metros, na parede, lá no alto, minha mulher identifica: uma barata, das grandes, cascudas.

Avisamos o maître, que se aproximou do bicho e, com um pano, desferiu um golpe que o derrubou. O inseto caiu perto de umas plantas, e lá foi o dedicado funcionário para tentar pisoteá-lo, sem muito vigor (medo de fazer barulho e estardalhaço, talvez? não vamos esquecer que esse tipo de tarefa é sempre desagradável, além do mais no ambiente onde se come).
Matou? Sim, está morta, disse ele, visivelmente incomodado. As justificativas: a cucaracha teria vindo da rua, estava muito calor, e a porta teria ficado aberta. Com tudo fechado e o ar condicionado funcionando, estaria resolvido o problema etc. Depois ele limparia o estrago, já com o restaurante fechado.

Mas e aí, ficamos, vamos? Perdemos a fome?
Permanecemos, pois logo chegaram as entradas – até que corretas, apesar de o apetite já ser sido seriamente comprometido. Prosseguimos, vieram os pratos, bonzinhos até, e… reapareceu a barata, na mesma parede, escalando rumo ao teto. Avisamos o maître.

É a mesma? É outra?
Ele então se aproximou do local onde havia deixado o cadáver, observou com olhar de investigador e disse com gravidade: “ela sobreviveu”, como numa cena de filme ruim de terror. O inseto chegou então até o alto, passou por uma fenda e desapareceu, provavelmente foi para a rua. E o funcionário permaneceu por ali, olhando, incrédulo, refazendo mentalmente a trajetória da cascuda. “Você também tem medo de barata, né?”, perguntou minha mulher. Suando, engolindo a seco, o maître respondeu: “Eu tenho pavor. E muito nojo também”.

Pedimos para fechar a fatura. Eu me desculpei, peguei minha rolha, fechei a garrafa e coloquei de volta na bolsa. A conta chegou à mesa com abatimento de 20%, “devido ao transtorno”, segundo o maître. Se o preço não foi o integral, a fome foi praticamente pela metade: comemos bem menos do que o normal.

O Trinch foi terminado em casa. Estava mesmo bom.

Ficou com água na boca?