Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

Relaxe…

24 maio 2010 | 00:03 por Luiz Américo Camargo

O conselho veio numa consulta médica – está tudo bem, coisa de rotina–, diante de um quadro de cansaço, bastante trabalho etc. “Quando tirar férias, procure passear, se distrair. E, mesmo na hora de comer, faça isso de forma relaxada, descompromissada”. Ele disse isso em referência ao que eu havia explicado pouco antes, que parte do que faço tem a ver com ir a vários restaurantes, provar tudo o que é tipo de comida. E  sempre com atenção: é preciso concentração, lembrar do que comi, se achei bom ou ruim e por que razões, escrever, descrever.

Não que isso seja uma tortura, muito pelo contrário. É assim que funciono: ainda que a graça maior seja comer, parte do prazer que tiro desta atividade é estabelecer relações, interpretar, identificar, categorizar. Eu me divirto, mas também me canso.

Mas fiquei pensando no que disse o doutor. Será que eu consigo sentar à mesa sem me preocupar com mais nada? Não sei mais dizer. Para as férias, já tenho algumas refeições programadas e, claro, vou para me deliciar (a menos que entre em alguma experiência mais azarada). Mas também quero registrar as experiências.

 No fim das contas, cheguei à seguinte conclusão. Vou comer com apetite, com entusiasmo; vou aproveitar a companhia de minha mulher e minha filha e de outros parentes e amigos que encontrar; mas sem deixar de refletir a respeito. Já não é mais um botão que desligo, e pronto.

Fazendo uma analogia com os sentidos, sabe quando tapamos o nariz e tentamos sentir o gosto de algo sem usar o olfato? Claro que boa parte da sensação se perde, como sabemos. É mais ou menos assim. Comer, sempre. E pensar a respeito, também. É parte da minha diversão. Talvez seja o caso então de esquentar um pouco menos a cabeça.

Ficou com água na boca?