Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

Relógios em descompasso

28 janeiro 2009 | 22:11 por Luiz Américo Camargo

Eu demoro pouco mais de um minuto para escolher o que quero comer. Dois, talvez. Decido rápido, o que é uma questão de treino, de saber o tamanho da fome, de interpretar a própria vontade, de conveniência profissional (preciso experimentar coisas). Mas mesmo assim gosto de olhar o cardápio mais longamente, entender sua lógica, ver o que é novo, o que é clássico, comparar preços, observar sua organização, caçar erros de grafia. Isso pode durar cinco minutos, talvez mais.

Já reparei que essa leitura mais detalhada incomoda os garçons. Questão de timing, mesmo. No segundo minuto, eles perguntam: “tem alguma dúvida, senhor?”. No terceiro, retornam: “posso ajudá-lo, senhor?”. Em seguida, a abordagem é: “posso sugerir um prato, senhor?”. Há pouco espaço para a tolerância. Contudo, há que se reconhecer que somos cúmplices nessa história, já que também não queremos esperar muito pelo prato, mesmo quando se trata de algo que será preparado na hora. Mas é um fato: os profissionais de serviço pacientes com a dúvida do cliente vêm se tornando escassos. Há alguns que mal conseguem conter a ansiedade. Há outros, entretanto, que desempenham esse papel com maestria, misturando competência e simpatia e, quando você se dá conta, a sua escolha, na verdade, foi a dele.
Maîtres e garçons de primeira linha, senhores restaurateurs, são artigo precioso. Sabem acelerar no momento certo, cadenciar quando necessário. Como instrumentistas atentos ao maestro (que, neste caso, é um regente involuntário, pois está apenas comendo), percebem a hora do fortissimo, a hora do piano.

Eu só não entendo porque atendentes muito apressados, os referidos que sofrem de síndrome de ansiedade diante do cliente meticuloso, em geral, costumam demorar a tirar o prato quando o mesmo já foi devidamente terminado. E tem o hábito de levar mais tempo ainda para trazer a conta e receber o pagamento. Questão de timing.