Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

Resistirei à feijoada?

14 maio 2009 | 08:57 por Luiz Américo Camargo

A cada santo sábado passo por um dilema: eu como uma feijoada ou não?
Em geral, não como, ataco o prato com bem menos frequência – apesar de gostar muito não apenas de seu sabor, mas de seus rituais. Começar com um torresmo, uma bisteca, mandioca, depois montar o primeiro prato, feijão, arroz, farofa, couve, as carnes; compor o segundo prato, repetindo o que estava melhor e assim vai.

Nem sempre tenho o tempo necessário para o ritual e, quase sempre, acabo indo a lugares que quero/preciso conhecer, para provar de outras coisas. Vou adiando a feijoada, então. E por que só no sábado? É a força da tradição, que postula como sendo este o sacrossanto dia do feijão preto, do paio, do pé, da carne-seca e toda sua corte? Ou é o fato de ser um dia de descanso (eu trabalho aos sábados, muitas vezes), com mais horas livres e a possibilidade de repouso pós-comilança? O ponto é que, apesar de alguns restaurantes terem o prato em outros dias da semana, é difícil dissociá-lo do sabadão. No jantar? Cada vez mais difícil. Quando era garoto e minha mãe fazia feijoada (faz bem, até hoje), comia no almoço (de domingo, em geral), no jantar, na segunda, e até na terça, se sobrasse. Agora já não dá para fazer isso.

Leio no interessante livro ‘A Formação da Culinária Brasileira’, do professor Carlos Alberto Dória, a menção ao fato de a feijoada, estatisticamente, não ser um prato cotidiano, mas quem sabe cerimonial. Faz todo sentido. E, ainda que não seja para consumo diário, como é forte a ideia da feijoada como a grande especialidade nacional.

Pensando ainda na execução do ritual, fiquei com certezas balançadas depois de ler as reflexões sobre o prato contidas em uma passagem do ‘Baú de Ossos’ de Pedro Nava, emprestado pelo amigo Luiz Horta. Para ele, Nava, tinha que ser sem arroz e sem laranja. O primeiro ‘abranda o gosto’. A segunda, ‘corta’. E, de fato, de uns tempos para cá, reparei que tenho diminuído a quantidade de arroz que acompanha o feijão. É só uma colher, colher e meia, e olhe lá. Laranja? Se estiver muito boa, como. Mas depois.

Já as quartas não me inspiram tanto. É dia de trabalho, as obrigações e os focos são outros. Ontem, por exemplo, foi quarta e nem lembrei direito da feijoada. A bem da verdade, numa correria danada, nem almocei. O que estava à mão era uma vitamina de frutas, dessas bem mais ou menos.

Ficou com água na boca?