Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

Revendo as contas

29 abril 2009 | 13:34 por Luiz Américo Camargo

Ah, sim, os preços dos restaurantes. Faz dias que não falamos disso, não? Mas vamos então à contabilidade das últimas refeições. Considerando as cinco mais recentes, em uma delas estourei bem os R$ 100 por cabeça – aquela nossa meta, lembram? Equivalente a 46 dólares e a 34 euros. Em três delas, foi quase, fiquei perto. Em uma, fiquei bem mais abaixo.

Agora, se vocês me perguntassem qual dos programas valeu mais a pena, eu arriscaria: as duas mais caras. Notem que não estou dizendo que saí feliz com o que paguei. Mas penso no tal custo/benefício, analisando o que foi comido, o que foi servido, e o que foi desembolsado. O que eu poderia extrair dessa experiência, num modesto e altamente subjetivo exercício de interpretação de números? Que minha tese sobre a falta de rumos e critérios da chamada restauração média me parece cada vez mais pertinente. Desculpem o rompante de imodéstia.

Vamos então pensar como eu poderia ter reduzido as contas, especialmente as que julguei mais injustas.

-Vinho: Em uma das visitas, levei a garrafa, paguei a rolha. Em outra, dividimos um tinto entre seis pessoas. Nas demais, pedi opções em taça. Assim sendo, o passo abaixo seria simplesmente ficar na água mineral. Nacional, claro.

-Couvert: Ele foi aceito em apenas duas ocasiões. Em um caso, pela originalidade, valeu conhecer. Na outra, porque era mesa grande, e algumas pessoas queriam etc.

-Entradas: Digo o seguinte. Nas oportunidades em que saí com minha mulher e minha filha, pedimos duas entradas para três. Ou mesmo uma só, maior, para ser beliscada no centro da mesa. Menos do que isso? É pular esta etapa.

-Pratos: Existe muita variação de preço neste quesito, claro (uma massa simples e crustáceos não podem custar o mesmo). Mas declaro que não andei apreciando nenhuma grande iguaria. Pedimos um para cada comensal, com uma exceção: um dia em que optamos por carne grelhada. Dividimos a porção, que era grande.

-Sobremesa: Em nenhuma visita escolhemos uma para cada um. Sempre compartilhando (às vezes, um doce para três pessoas).

– Café: Em dois lugares, nem pedi.

– Valet: É a despesa que mais me dilacera. Como pode custar o mesmo que uma sobremesa? Se tiver vaga na rua, é ali que fica (afinal, as chances de o carro ir para lá mesmo são grandes). Por duas vezes parei eu mesmo, a alguns metros dos restaurantes. Os gastos foram entre R$ 12 e R$ 15.

Consumi demais? Não, e nem é meu perfil. Provo de tudo, exagero aqui e ali, mas meu negócio não é quantidade.
Estou virando um sovina? Talvez não: eu adoro a sensação de ter comido muito bem, nem que para isso a conta tenha de ser alta. O que anda me doendo, mesmo, é ver meus recursos malbaratados.
O que vem depois, então? Parar de ir?

Fiz disso uma profissão, para minha sorte – pois é um grande prazer. Mas imaginem o cliente que junta seu dinheirinho para ir uma vez por semana, ou menos, provar da comida de um restaurante.
Há uma conta que não fecha nessa história toda. Não posso atribuir os disparates de preço à mera vilania de chef e restaurateurs (talvez uns poucos sejam aproveitadores. O mal existe, é fato; mas me recuso a cair em simplificações). Existe, sim, um modelo errado, uma visão equivocada, e algumas deformações de comportamento – neste caso, dos dois lados do balcão.

Enfim, é só para vocês saberem que, conforme lançado no post de 28/3, a meta fiscal continua.