Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

Sabor de torô

18 novembro 2009 | 14:54 por Luiz Américo Camargo

Almoçávamos em um restaurante e eu sugeri que minha filha experimentasse um pedaço da beterraba que estava à mesa. Ela nem quis saber. Quase sem ilusões de que o truque funcionasse, então eu brinquei: “É uma pena. Está ótimo, com um gosto que lembra sushi de torô”. Louca por niguiris, ela pegou um pedaço e comeu. “Até que é bom”, disse, meio blasé.

Eu não esperava que a brincadeira surtisse efeito – e, sinceramente, nem acho que ela tenha acreditado. Mas pensei nesses estratagemas que os adultos usam para introduzir novos produtos na dieta das crianças. Puxei pela memória, e me vieram umas lembranças meio turvas. Eu com poucos anos de vida, e alguém me dizendo. “Vamos, prove o palmito. É bom. Tem gosto de milho”. Não sei de onde veio isso. As texturas, as cores, tudo é diferente. Alguma associação pelas notas adocicadas, quem sabe se por fruto do cozimento, aproximando as espigas dos miolos das palmeiras? Não sei.

Experimente camarão, parece peixe; experimente jacaré, parece frango; experimente batata-doce, parece… batata. Por que falamos este tipo de coisa para as crianças? Para tapear ou só para descrever algo que não sabemos nomear direito?

O prazer na descoberta de novos sabores passa por muitas variantes. Pendores naturais, limitações devido a certas alergias por vezes nem identificadas, fatores culturais, pressão de grupo (quando pequena, bem pequena mesmo, minha filha comia de tudo; passou a recusar certos ingredientes quando via que alguns amigos faziam “eca!” para as mesmas coisas). Criança enjoada – como diziam antigamente – é criança que tem opções demais à disposição.

Mas nem tudo é tão simples. Quando topou entrar de vez na culinária japonesa, minha filha destravou todos os enjoamentos – desde que no contexto nipônico. Arrisca-se pelas coisas mais improváveis, por todas as ovas, todos os bichos… Ainda que resista aos legumes e frutas da nossa cultura cotidianamente ocidental. Mas está melhorando: já aprecia bem suínos e até ovinos. O cardápio vai ampliando.

Não sou de mentir. Digamos que, às vezes, eu omito informações. Como quando fiz ela provar coelho, por exemplo. “O que é?”. Eu apenas respondi: “Coma primeiro, veja se gosta. Depois eu conto”. Mentiras, só na forma de brincadeira, para não perder a piada. Como a beterraba sabor torô.

Ficou com água na boca?