Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

Sem carregar no sotaque

09 junho 2011 | 06:53 por Luiz Américo Camargo

Publicado no Paladar de 9/6/2011

Eu sempre tive uma certa dúvida sobre o posicionamento dos restaurantes árabes da cidade. Primeiro, por pensar que eles enfrentam uma concorrência que vai além do seu segmento: de um lado, pela ótica da comunidade, existe a comida das mães e avós – que é imbatível, se o critério for afetivo. De outro, pelo prisma do grande público, há o fast-food, que puxou para baixo preço e qualidade e torceu critérios sobre o que vêm a ser (e quanto valem) esfihas e afins.

Depois, por achar que sobre esse tipo de estabelecimento sempre recai o peso do típico, autêntico. Quando as pessoas vão a um restaurante francês, por exemplo, não se importam se o chef é da Borgonha ou é brasileiro. Nem se há parisienses entre os comensais. Desejam apenas comer bem. Porém, quem entra num restaurante dito étnico, faz questão não só do cozinheiro estrangeiro como quer ver a colônia ocupando o salão, como atestado de qualidade. Qual o limiar? Cuisine française é universal e se aprende na escola, enquanto outras modalidades exigem DNA, pedigree?

É difícil responder. Mas, concluindo, eu diria que o recém-aberto Manish, antes de ser medido pela tipicidade, deveria ser visto como um bom restaurante. Dentro de uma proposta libanesa, ele trafega por uma faixa que não é nem emocional nem memorialística. Ainda que seja comandado por uma família árabe, com experiência no ramo: os donos são Paulo Abbud, do Farabbud, e Paulo Abbud Filho, que também cuida do Saj.

O cardápio é bem composto. Não é incomum, mas evita clichês excessivos. Os pães saem na hora, com destaque para o saj e para o manish, feitos numa chapa metálica – ambos são do tipo folha, mas o manish leva azeite e zaatar. As entradas incluem opções apetitosas como a linguiça bovina chapeada (R$ 19,90) e o trigo frique (R$ 19,30; trigo grosso, com frango desfiado e coalhada). E os pratos, no geral, são equilibrados. Como o chish barak (R$ 32,90), cappelletti de vitela em molho de coalhada; o chacrie (R$ 39,90), com pedaços de fraldinha cozidos lentamente, também na coalhada; e o herice (R$ 24,90), o melhor entre os itens provados, sopa com trigo grosso e frango desfiado.

Segundo o Manish informa, os proprietários foram ao Líbano para pesquisar receitas. E aí acho que cabe um comentário. Não seria interessante, neste caso, propor alguns pratos que escapem do que já é praticado por aqui? Certo, é difícil se desviar de um receituário clássico, já estabelecido. Mas será que também não faz parte do trabalho do restaurateur aumentar o repertório da clientela? E nem estou falando de modernidade, mas da atualidade cotidiana.

Por fim, um comentário sobre o ambiente. O restaurante é iluminado, agradável. E boa parte dessa atmosfera se deve aos muxarabis, os elementos vazados de origem árabe que permitem a entrada da luz pela parede. E ao fato de uma parte do teto ser feita de vidro. Em dias de temperatura amena, funciona. Mas com sol forte, nem tanto. Na dúvida, prefira as mesas do fundo.

Por que este restaurante?
Porque é uma novidade. E boa para uma refeição despretensiosa.

Vale?
Cerca de R$ 60 por pessoa, sem vinho. A relação preço-qualidade é boa.

Manish
R. Horácio Lafer, 491, Itaim Bibi, 4301- 5928, 11h30/15h30 e 17h30/23h30 (6ª até 0h30; sáb., 12h/0h30; dom., 12h/22h30.). Cc.: todos.
Cardápio: libanês, com esfihas, pastas e pratos quentes