Paladar

Sentido bairro

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

Sentido bairro

04 abril 2013 | 07:23 por Luiz Américo Camargo

O Campo Belo em nada lembra o Itaim-Bibi. O predomínio é de residências e acha-se até lugar para estacionar na rua, o que atualmente é espantoso. E foi nesse tranquilo bairro da zona sul, na Rua Jesuino Maciel, que Sergio Arno, tão identificado com o Itaim-Bibi, abriu o La Quottidiana. É quase inevitável ir ao novo restaurante e não associá-lo a outros estabelecimentos do empresário.

O cardápio evoca o finado La Vecchia Cucina, com preços bem menores; o clima de trattoria lembra o La Pasta Gialla – apesar das colunas gregas e de outros exageros decorativos; a rotisseria, ainda não inaugurada, sugere um parentesco com o Alimentari. O La Quottidiana, porém, também tem DNA campo-belense. Seu outro sócio é Cláudio Vieira de Moraes – segundo o “prefácio” do cardápio, membro da tradicional família que inclusive dá nome a uma das principais ruas dos arredores. O público, por fim, também é vizinho. Muitos chegam a pé.

Regional. Casa de Sérgio Arno no Campo Belo sugere fuga para o bairro. FOTO: Felipe Rau/Estadão

Sendo tudo tão pacato, o mais complicado foi decifrar o menu, com suas letras pequenas e fontes rebuscadas (e olhe que eu enxergo bem). Depois que você se orienta, percebe que há várias pedidas interessantes, embora os educados garçons ainda não as conheçam direito. E eu comecei bem a refeição (ou melhor, as refeições) com entradas como os involtini (R$ 16,50) de berinjela e abobrinha com queijo de cabra (apesar do excesso de molho) e o bacalhau a baixa temperatura (R$ 24) empanado com bacon pulverizado, servido com feijão branco. Mas me decepcionei com os ovos de codorna fritos, no limite da sensaboria.

Dos pratos, as sugestões mais apetitosas foram a dobradinha (R$ 38) e a lasanha de alcachofra (R$ 44), seguidas de perto pelos tortelli de maiale (R$ 38,50). E a mais fraca, de longe, foi a costeleta de vitela à milanesa (R$ 42), tanto pelo sabor da carne como pela qualidade do empanado. Um programa que, no fim das contas, talvez compense mesmo para quem está pelas imediações.

E aí, vale rever a trajetória de Sergio Arno. O chef já enxergou, na década de 80, que a cucina servida na cidade precisava de um aggiornamento (La Vecchia Cucina). Nos anos seguintes, percebeu que a cozinha rápida à italiana podia se transformar em rede (La Pasta Gialla); e antecipou a onda dos híbridos restaurante/rotisseria (Alimentari). No La Quottidiana, ele aponta para o microrregional.

Segundo a própria casa, a opção pelo Campo Belo foi uma fuga da saturação do Itaim, rumo a uma área carente de restaurantes. Parece mais do que isso. Soa como aposta numa nova cultura de bairro. Se a segurança é um temor, se o trânsito é um estorvo, se a lei seca e suas blitze são um fato (e os táxis, muito caros para longas distâncias), será que comer perto de casa é a solução? Para não poucos, talvez sim.

É ótimo, por um lado, que surjam alternativas aos eixos mais manjados – e sem ser necessariamente dentro de shopping centers. É chato, por outro, se o futuro nos levar ao extremo oposto: sai a pólis congestionada, entram as cidadelas e seus muros. Com menos riscos, é verdade, mas com menos intercâmbio, também. Ou será que agora eu exagerei?

Por que este restaurante?
Porque é uma novidade.

Vale?
Estando na região, pode ser. Se estiver longe, talvez não seja o caso.

SERVIÇO – La Quottidiana
R. Dr. Jesuino Maciel, 710, Campo Belo
Tel.: 5093-0773
Horário de funcionamento: 12h/14h30 e 19h/22h30 (6ª, jantar até 23h; sáb., 12h/16h e 19h/23h; dom., 12h/16h. Fecha 2ª)
Cc.: A, M e V
Manob.: R$ 17

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