Paladar

Sinta-se em casa

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

Sinta-se em casa

21 agosto 2013 | 23:00 por Luiz Américo Camargo

Vou exagerar, está certo. Mas se não é isso, chega perto. Se, por algum motivo misterioso, uma visita ao prosaico Sainte Marie, na Vila Sônia, tivesse de se resumir ao couvert (gratuito, aliás), à base de pão sírio e, especialmente, de coalhada fresca feita na casa, talvez a viagem já estivesse justificada. Delicada, de textura sedosa, ela pode ser provada na pequena porção oferecida logo que a mesa é ocupada, para aplacar a fome mais imediata do visitante. Ou pedida numa dose maior (R$ 19).

Mas não é só a coalhada que é artesanal. O pão sírio que a acompanha também é preparado na cozinha deste empório/rotisseria fundado em 2006, que só depois virou restaurante. Assim como o basterma, a carne curada e condimentada à maneira armênia. E as esfihas. E os doces. Tudo sob o controle do carismático Stephan Kawijian, libanês de origem armênia, que se desdobra na recepção, no aconselhamento de pedidos à mesa, na supervisão do forno e da grelha.

Sainte Marie. Culinária árabe-armênia feita artesanalmente pelo dono. FOTO: Clayton de Souza/Estadão

O mundo culinário árabe-armênio de Kawijian, a bem da verdade, é um grande Mediterrâneo expandido. Seu cardápio inclui Marrocos e Grécia, passa pela Espanha, abraça o trivial paulistano. Com habilidades de equilibrista, o chef consegue manter a tipicidade de certos pratos sem, entretanto, se apegar a totens e dogmas. Acrescenta elementos diferentes, propõe novas apresentações, para, no fim, ainda soar autêntico. Seja preparando uma esfiha de basterma com queijo (R$ 8) ou um cozido borghol, com trigo e grão-de-bico (R$ 15), seja fazendo uma generosa – e delicada – moussaka (R$ 38), com extrema atenção dada ao bechamel, ao tempero da carne moída.

Kawijian é um cozinheiro/restaurateur obcecado pela fofura (sim, você não leu errado). Repare que o termo “afofar” é recorrente por quase todo o cardápio (redigido numa divertida mistura de árabe, português e pitadas de francês). O que pode valer tanto pela busca da kafta (R$ 22) mais leve e balanceada possível, a melhor que comi nos últimos tempos, feita na grelha e servida aberta, com vegetais igualmente grelhados; como para o tratamento zeloso com os clientes, cumprimentados um a um, na entrada e na saída.

Folclores à parte, um chef que prepara com as próprias mãos tudo que serve (a exceção é o pão sírio grande); que não cobra couvert; que orienta as mesas sobre o quê e quanto pedir; que acolhe o público como se estivesse recebendo hóspedes em casa – convenhamos, bem poderia inspirar outros empreendedores do mercado. O restaurante só abre para almoço e chegar cedo é sempre recomendável, para conseguir lugar e escolher os pratos com mais calma. Depois que enche, é preciso mais paciência. Com a possibilidade, em caso de muita demora e segundo orienta o próprio cardápio, de o próprio cliente se servir das bebidas. Afinal, não estão todos em família?

Por que este restaurante?
Pela qualidade de sua comida de inspiração árabe e armênia.

Vale?
Os pratos e porções são bem servidos e é possível compartilhar a maioria dos itens. Vale.

SERVIÇO – Sainte Marie Gastronomia
R. D. João Batista Costa, 70, V. Sônia
Tel.: 3501-7552
Horário de funcionamento: 12h/15h (sáb., 12h/17h; fecha dom.; rotisseria, onde é possível comprar os pratos para levar: 10h/20h.)
Cc.: M e V
Estac.: não tem

>> Veja a íntegra da edição do Paladar de 22/8/2013

Tags:

Ficou com água na boca?