Paladar

Sírio ou armênio? Paulistano

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

Sírio ou armênio? Paulistano

06 fevereiro 2013 | 21:00 por Luiz Américo Camargo

Não é sempre que se vai a um restaurante onde, rotineiramente, alguém recebe você com um aperto de mão. Nem é sempre que um estabelecimento “de bairro” consegue transpor a barreira do local, do pitoresco, para atrair outros visitantes. Mas o Carlinhos, no Pari, desempenha esse papel de forma espontânea.

A casa foi fundada em 1971 pelo sírio de origem armênia Missak Yaroussalian, o Carlinhos, morto em janeiro. Intuitivo, autodidata, Carlinhos – o mestre-cuca – misturou dotes de chapeiro de lanchonete a uma visão bem paulistana de restauração. Seu cardápio é extenso e, ao estilo antigo, tem de tudo: cozinha internacional, carnes diversas, receitas de acento árabe, massas.

Ali no Pari. Salão amplo, cardápio extenso, serviço camarada. FOTO: Felipe Rau/Estadão

Contudo, o Carlinhos – o restaurante – consegue seus melhores resultados no flerte dessa culinária variada com as tradições sírias e armênias. Sua cozinha se expressa pela linguagem do fogão a gás, da chama, do forno e, principalmente, da chapa. Já tentei variações em minhas escolhas. Mas é difícil ir até lá e deixar de pedir as especialidades que viraram assinatura do clã Yaroussalian.

Por exemplo, o arais (R$ 9,80), a kafta prensada como um sanduíche de pão sírio, para comer com as mãos. E o basturmalã com ovos (R$ 36,80), a carne curada à armênia, frita e servida com gemas moles, para apreciar beliscando com o pão sírio, no limite da lambança. Um perigo para quem usa camisas claras. O restaurante, entretanto, ganhou fama também pela picanha fatiada (R$ 48,80) na chapa. E, num segundo plano, pelo cordeiro, com duas versões em especial: o carré (R$ 72,80) para dois, a rigor malpassado; ou o pernil assado, para 12 ou mais (sim!), só sob encomenda.

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Dias depois da morte do patriarca, o restaurante guarda ainda um certo luto. Mas nada que interfira no ritmo da cozinha, que mantém o tom. Nem afete a cordialidade do serviço (sempre supervisionado pelo filho Fernando), que não tem mesuras nem formalismos – os garçons querem mais é cuidar bem dos pedidos e tratar o cliente com simpatia.

Almoçar no Carlinhos, por fim, não é um programa exatamente gastronômico, embora a comida seja gostosa e farta. É uma experiência paulistana, uma daquelas provas de que a metrópole não guarda seus segredo na superfície. Mas também não os restringe apenas aos nativos, aos confrades. Basta aprender a transitar entre os tempos e mundos paralelos que coexistem na cidade.

Ir à R. Rio Bonito, 1.641, enfim é a chance de conhecer um daqueles lugares que fazem São Paulo ser interessante e tão particular – para além de ingenuidades ufanistas do tipo “centro mundial da gastronomia” ou do ouro de tolo dos restaurantes da moda. É ótimo ver o Carlinhos em forma e com futuro. Mas mantendo os bons modos aprendidos no passado.

Por que este restaurante?

Porque é uma boa dica (talvez já seja um clássico da cidade).

Vale?

O programa é divertido e amigável. É possível partilhar muitos pratos, que nem são muito caros. Vale.

SERVIÇO – Carlinhos
R. Rio Bonito, 1.641, Pari, 3315-9474. 11h30/15h (fecha dom.). Cc.: todos.

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