Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

Sorria. Você está na Amauri

26 fevereiro 2010 | 00:38 por Luiz Américo Camargo

Publicado no Paladar de 24/2/2010

Sempre tendo a pensar no Magari mais como um salão do que como uma cozinha. Como um lugar onde o entorno da mesa interessa mais do que o que vai no prato. Ainda que aquele enclave do Itaim-Bibi seja quase todo ocupado por casas badaladas, existe especificamente ali uma curiosa dinâmica: você sente que, ao mesmo tempo em que o restaurante está dentro da Rua Amauri, a Rua Amauri está dentro do restaurante.

 Quem frequenta o Magari? Pessoas que você reconhece das colunas sociais, executivos, casais. Aos cinco anos, o lugar atualmente atrai mais público do que nos primeiros tempos. Na origem, a casa estava ligada a Giuseppe La Rosa, do Vecchio Torino. Hoje, sob o comando do restaurateur Marcelo Mussi e do chef Antônio Gualberto, o restaurante parece ter aprofundado a vocação italiana. Mas ainda com influências do Vecchio Torino.

 Um dos carros-chefes continua sendo o gnocchi fontina (R$ 49), inspirado no gnocchi alla piemontese do cuoco La Rosa. São parecidos? Sim, ainda que a versão do Magari tenha massa com mais farinha e molho menos homogêneo. Vejamos, então, um item de domínio público, o tradicional alla amatriciana (R$ 43). O prato é feito com penne, num molho não muito picante – com um quê doce. Num estilo “vecchiotorinese”, então? Isso mesmo.

 No geral, a cozinha do chef Gualberto (sim, ex-Vecchio Torino) é afeita à simplicidade dos clássicos. E demonstra equilíbrio, seja em pratos potentes, como o cabrito assado (R$ 79), ou mais delicados, como a lasanha (R$ 56), com massa bem fina, carne e espinafre. Mas aí você faz a contabilidade do programa. A comida, o pé-direito alto, as pinturas de Gustavo Rosa. Compensa? Eis aí a questão.

 Os preços incluem o Magari entre os endereços mais caros da cidade (há várias sugestões acima dos R$ 80). Mas, pela ótica gastronômica, a casa joga de fato na primeira divisão? Diria que não. Surge, a partir daí, aquela intrigante equação. Por que as contas estão tão altas? Por que gastar menos de R$ 100 por pessoa ficou tão difícil?

 Comer fora em São Paulo está tão caro quanto na Europa. As justificativas dos restauradores são as de sempre. Impostos, custos operacionais, etc. Mas na raiz existe um posicionamento equivocado dos preços. Como se todo mundo fizesse parte do segmento do luxo, como se todos vendessem alta gastronomia. E são poucos os que oferecem isso. O público já percebeu que há algo errado nessa relação? A maioria, sim. Talvez ainda não na Rua Amauri, onde os códigos são outros. Mas, mesmo ali, chegará o dia em que os clientes, depois de receberem o carro do manobrista, pensarão no caminho de volta: “O que eu fiz com meu dinheiro?”

 Magari

 R. Amauri, 234, Itaim-Bibi, 3073-0234

12h/15h e 19h/0h (6ª até 1h; sáb., 12h/16h e 19h/1h dom., 12h/17h). Cartões: todos

Cardápio: italiano, de inspiração clássica