Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

Táxi!

30 agosto 2009 | 22:19 por Luiz Américo Camargo

Fui a um restaurante desses meio classicões da cidade. Daqueles lugares que parecem ter estacionado em algum lugar entre os anos 70 e 80, ainda que não seja decadente. Comi direito, nada que desabone. Mas uma cena me chamou a atenção enquanto eu amargava uns minutinhos na espera. Um cliente certamente tradicional da casa, cabelos brancos, óculos escuros (como parecia ser o padrão do público ali presente), rosto bronzeado, entrou e deu um forte abraço no maître. Coisa de velho amigo, mais do que da relação entre visitante e prestador de serviço. Achei legal, e estou dizendo sem deboche. Deve ser um frequentador de muitos anos (depois vi que ele estava com filhos e netos), que provavelmente conhece todos os pratos do cardápio – ainda que, suponho, deva pedir sempre os mesmos.

Há muitos lugares, eu sei, em que a coisa funciona assim. Freguesia fiel, garçons quase da família, o restaurante como extensão da sala de jantar de casa. Repito: acho interessante, até porque sei que isto jamais acontecerá comigo. E falo sem inveja, pois simplesmente não é a minha, inclusive por reserva pessoal. Na minha profissão, tenho justamente de fazer o contrário: não ser cativo. O meu ponto de vista tem de ser o do visitante normal – obviamente filtrado pela experiência e pelo conhecimento especializado. O olhar do cliente-quase-sócio, para quem quase tudo está sempre bem, jamais será o meu.

Evidentemente eu tenho restaurantes de minha preferência. E, em alguns deles, por força de outras atividades no jornalismo gastronômico, até sou conhecido. Mas a relação é sempre muito respeitada, sem avançar o sinal. Fora isso, não posso me render apenas às minhas vontades. Tenho que descobrir outras coisas. Tenho sempre que variar, que rodar, que percorrer a cidade. (Agora, imagino, você começa a entender o título deste post.)

Nem sempre vou onde quero. No dia-a-dia de meu ofício, preciso conhecer os endereços novos, revisitar estabelecimentos, variar estilos e modalidades de cozinha. Em vários lugares, e eu diria que são maioria, é muito difícil se emocionar – estou falando de comer muito bem, de me surpreender etc. Eu vou (sem preconceitos, buscando estar aberto para o que vier), faço minha refeição, constato como está a casa, e sei que voltarei só uns tempos depois, para revê-la. Se tiver notícia para contar ao leitor, tanto melhor. Mas é quase uma relação de motorista de táxi, que pega um passageiro aqui e larga ali. Um contato breve e fugaz. Sempre com profissionalismo. Nunca com o abraço do maître-camarada.

Foi para falar desses restaurantes que criei a categoria “Está Visto”. É aquele tipo de programa sem muita empolgação, que não deixa na memória muitos sabores nem desperta grandes ideias. E se você acha que, neste quesito, incluem-se só endereços mais simples, é um engano. Há muita restauração metida à besta que acaba se inserindo aí. O que fazer? Da minha parte, eu sigo adiante.

Agora, com licença, que já estou trabalhando em horário de bandeira dois.

Ficou com água na boca?