Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

Tem alguém em casa? Sim, o chef

20 janeiro 2011 | 09:15 por Luiz Américo Camargo

Publicado no Paladar de 20/1/2011

Um restaurante que parece estar sempre vazio não instiga muita gente a entrar. É uma espécie de círculo vicioso, do tipo “se ninguém está lá, por que eu estaria?” Criam-se então as mais variadas conjecturas, da qualidade (e do frescor) da comida a hipóteses mais misteriosas. Há quem goste da solidão no salão e veja nisso uma possibilidade de atendimento exclusivo. Mas esse é um ponto de vista excessivamente otimista.

Dito isso, por que será que não se vê quase ninguém no Vinarium Vino & Cucina? Desculpe ter criado suspense, mas é claro que eu não vou me meter a explicar. Pois os vetores de forças que levam ao sucesso de um estabelecimento têm muito de ciência como têm de magia.

Se muito, alerto para o risco de o Vinarium nem ser percebido, ainda que esteja na Alameda Lorena, quase na esquina da Rua Ministro Rocha Azevedo. Na pressa, parece que o público passa batido pela porta, e nem bota reparo no cavalete exibindo as sugestões do almoço.

Mas o fato é que, lá dentro, há um cuoco italiano servindo uma cozinha bastante decente, com pratos de perfil mais para tradicional. O napolitano Ciro Sabella, há um ano no Brasil, cuida do restaurante ao lado da mulher, a brasileira Marta Silva. Sem aparatos nem brigada de funcionários, com uma simplicidade que destoa dos Jardins.

O chef, que trabalhou na Itália e na Alemanha, recebe os clientes falando um bom português, oferece as opções do dia, vende seu peixe com cordialidade e entusiasmo e aí vai para o fogão. Exerce, enfim, a profissão mais como ofício do que como arte.

Seu menu de almoço, de R$ 32, pode incluir uma sequência como vitello tonnato, ravióli de ricota e berinjela ao molho de tomate e manjericão, e musse de chocolate, tudo muito gostoso e executado com esmero, ainda que num registro que está mais para casalinga do que para cucina clássica.

O cardápio, por sua vez, traz opções mais caras, entre entradas, massas, carnes e peixes (estes, com preços superiores a R$ 60). Entre os itens provados, o carpaccio de polvo (R$ 38) é um dos mais interessantes, ainda que o molho de mostarda seja um pouco excessivo. Já o risoto de açafrão com ragu de costela (R$ 25,50, na sugestão do dia), por sua vez, é saboroso e quase delicado.

Uma comida, enfim, sem truques, boa de sal e de tempero, se me permitem a definição quase ingênua. Mas às vezes é preciso dizer assim.

Resumindo o programa, o cuoco Sabella talvez não tenha muito mais a oferecer do que vários outros restaurantes italianos da cidade. Porém, quando se encontra um cozinheiro que trata seu ofício com tanta dignidade, preparando ele mesmo do pão da bruschetta à sobremesa, selecionando e cuidando dos vinhos, é bom tentar descobrir o que ele tem a dizer. Ou melhor, a servir.

Por fim, eis dois avisos de ordem prática. O couvert, com pão, manteiga e patê, não compensa os R$ 14 – quase a metade do preço do menu executivo. E, para quem for na hora do almoço, cuidado com as primeiras mesas do salão, onde o calor é forte. A fachada e parte do teto são envidraçados e, se o sol aparecer, não haverá trégua. As possibilidades de o cliente terminar a refeição cozido a baixa temperatura são grandes.

 Vinarium Vino & Cucina
Al. Lorena, 1.214, Jd. Paulista, 3062-0597. 11h30/15h30 e 18h30/23h30 (fecha 2ª). Cc.: M e V. Cardápio: italiano, com receitas de várias regiões

Ficou com água na boca?