Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

The voice

05 abril 2014 | 13:45 por Luiz Américo Camargo

Lembro da primeira vez que falei com José Wilker. Foi por conta de sua participação em O Curandeiro da Selva, Medicine Man, em Hollywood. Um filme de 1992, estrelado por Sean Connery. Eu editava um guia de programação da ainda novíssima TV por assinatura e o José Maria dos Santos, à época diretor da revista, me pediu que eu conversasse com ele a respeito (sabíamos que o encontro com o maior dos 007  tinha sido uma experiência divertidíssima). Liguei para o Rio – sim, foi impactante falar diretamente com o dono da provável maior voz da dramaturgia nacional – e pedi um depoimento. Ele me disse o seguinte: “Olha, você não quer que eu mesmo escreva a respeito?”. Obviamente que topei, topamos, e, pouco tempo depois, no prazo rigorosamente combinado, o texto chegou por fax (vejam, por fax!).

A mensagem inicial, na primeira folha, já dava o tom do que viria depois. Mais ou menos assim. “É a primeira vez que escrevo sobre encontrar o Sean em Medicine Man. E é a última vez que toco no assunto, pois já dei entrevistas demais a respeito. Caso contrário, corro o risco de ficar como aquele roqueiro aqui do Rio, que teve uma história antiquíssima com a Janis Joplin e só fala disso até hoje”.

O texto estava ótimo e Wilker passou a colaborar, mensalmente. Fazia longas resenhas, sobre filmes clássicos, lançamentos… Sempre com muito conhecimento de causa, por vezes com um certo radicalismo quase rabugento (era meticuloso, gostava de balizar suas colocações; tanto sua biblioteca como sua videoteca eram notáveis). Conversávamos periodicamente, sobre as pautas, e, tempos depois, eu fui perceber o quanto tinha aprendido sobre cinema com ele. Só nos encontramos pessoalmente uma vez, aqui em São Paulo. Uma jornada de um dia inteiro, onde deu para repassar de tudo: teatro, cultura alternativa, TV mainstream, Cinema Novo, Hollywood. Lembro que ele se ateve mais longamente a duas de suas referências, Rubens Correia e Marlon Brando. Sobre Brando, particularmente, rechaçou sua fama de “pouco instruído”. “É um mito que criaram, de que o ator bom é burro; Brando leu os clássicos, tinha repertório”. Outra passagem da qual não me esqueço: como ator, ele me disse que sempre gostou de ser dirigido, de saber o que querem dele. “Mas parece que o pessoal fica intimidado em me orientar, e aí eu faço o que acho que tenho que fazer.” Uma conversa que, de memória, eu acabei transformando num longuíssima entrevista, publicada (ou melhor, impressa) num número zero da mesma revista, durante a reformulação do projeto gráfico. Obviamente, permaneceu (e permanecerá) inédita, inclusive porque eu não a tenho.

Em momentos mais azedos, quando ele realmente tinha detestado um filme, costumava dizer: “O maior defeito deste filme é… ter sido feito”. Confesso que já senti vontade de usar a expressão com alguns restaurantes. Nunca escrevi assim, não é meu estilo. Mas que, eventualmente, eu penso, ah, isso eu penso.

Wilker se foi muito cedo: 66 anos, atualmente, é quase meia-idade. Era a voz.

Ficou com água na boca?