Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

Tradição? Diversão?

20 setembro 2012 | 19:09 por Luiz Américo Camargo

Publicado no Paladar de 20/9/2012

Um japonês instalado num belo imóvel na Vila Nova Conceição, com um menu não muito ortodoxo e que flerta com a cozinha contemporânea. Enunciando assim, você pode até pensar no Kinoshita (que, em comparação, é bem mais afeito à tradição). Mas é o Momotaro, do chef Adriano Kanashiro, conhecido pelo seu trabalho no Kinu, onde ficou até 2010, e principalmente pelo By Kanashiro.

Entusiasta de experimentações a partir de uma base japonesa, o cozinheiro mantém no Momotaro aquele estilo levemente provocativo que o levou a criações como o seu quase famoso tuna tartar, com atum, figo fresco e foie gras (a título de curiosidade, o chef defende ter sido o primeiro a unir o fígado gordo a sushis e que tais, em 2001; já no Rio, atribuem a ideia a Felipe Bronze, naquele mesmo ano). Seus pratos quentes e frios, de forma geral, trazem sempre alguma leve transgressão da matriz nipônica, ora com bons resultados, ora não.

O omakasê, a degustação com sete pratos, resume bem a proposta da casa. Começa em bom nível com o referido tuna tartar, segue melhor com o duo de ostras (uma é empanada, a outra é marinada), cai um pouco – por excessos gerais, inclusive de pimenta – no tataki de atum e no buri com espaguete de lula. Mas fecha dignamente com a carne de wagyu chapeada com purê de tofu e a panacota de lichia. Só incomoda um tanto a ansiedade do serviço: a brigada é gentil, mas insiste em saber as opiniões do comensal a cada etapa da refeição. E, falando ainda do salão, é simpático ver um carrinho de temaki circulando entre as mesas e apresentando as opções do dia.

Sentar no balcão, por outro lado, parece menos usual ali do que num japonês tradicional. O serviço fica um tanto indeciso, a atenção do sushiman parece algo dispersa, até porque está mais de olho nos pedidos que vêm das mesas. Mas dá para se entreter com batteras (sushis prensados) e temarizushis (sushis redondos), feitos com vários ingredientes e incrementados por molhos picantes e farofa de gergelim. Já pedir niguiris tradicionais faz você ser olhado quase como avis rara – embora os bolinhos sejam bons, como os de buri e de atum provados na visita. A moral da história, portanto, é a seguinte: não se deve esperar que laranjeira dê maçã. Se você quer um lugar que siga a vertente japonesa clássica, escolha outro endereço. O que não quer dizer que você não possa se divertir no Momotaro – pois, talvez, esse seja o espírito do coisa.

Por que este restaurante? Pela proposta nipo-contemporânea do chef Kanashiro. E porque esta é uma edição à japonesa, oras.
Vale? O omakasê, em sete tempos, custa R$ 100. À la carte, pedindo separadamente, pode sair mais caro. Tomando os devidos cuidados, vale como um programa divertido.

Momotaro R. Diogo Jácome, 591, V. Nova Conceição, 3842-5590.

 

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