Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

Um galo em busca de seu terreiro

26 março 2009 | 15:13 por Luiz Américo Camargo

Publicado no Paladar de 26/3/2009

“Está cheio?”, foi a primeira pergunta que fiz ao chegar ao Le Coq Hardy, pois não tinha reservado. “Está tranquilo”, garantiu o porteiro. Há 15 anos, quando o restaurante era o mais badalado francês da cidade, teria sido difícil achar uma mesa de última hora. Foi fácil.
A maioria dos presentes era de casais mais velhos, habitués. Ao fundo, está sentado um ex-prefeito da cidade, de muitos anos atrás. Uma figura pública que já saiu do centro do poder, assim como o Le Coq Hardy se afastou do centro da restauração paulistana. Por quê? Difícil dizer. Na relação entre restaurantes e mercado existe uma espécie de movimento de rotação e translação. Há fases, ciclos.

Na última década, o restaurante sofreu o impacto dos novos rumos da gastronomia na cidade. Em 2007, o restaurateur Vincenzo Ondei fez um lance corajoso. Chamou Pascal Valero para modernizar a cozinha, pintou o salão de preto e o decorou com fotografias de Luís Trípoli. Enfim, refundou o Le Coq, que completava então 30 anos. Meses atrás, Valero saiu (está no Kaá) e a casa retomou o cardápio tradicional, com Elizeu Soares. O que ficou disso tudo? A impressão de que, por um momento, o Le Coq rompeu com sua trajetória e deixou de usar um rico passado a seu favor.

Mas há alguns aspectos que, felizmente, nenhuma mudança pôde abalar. Um deles é o serviço, talvez um dos mais gentis da cidade, com uma fidalguia cada vez mais rara. Uma brigada de salão com traquejo para tornar segura qualquer viagem, capaz de explicar todos os pratos e aguçar o apetite do cliente.

O Le Coq Hardy, neste momento, trabalha à noite com seu cardápio tradicional, mas também com um menu especial, composto por entrada, prato e sobremesa por R$ 80. Fazendo as contas, a fórmula compensa mais. E foi com ela que provei seis coisas. De entrada, salada mesclun com chèvre e polenta – servida dura – com champignons e escargots. Como pratos, ravióli de perdiz ao molho de estragão e filé Daniel com arroz. Por fim, fondant de chocolate com coulis de coco e banana, e musse de bacuri.

Com exceção dos doces, implantados na fase Valero (o ótimo fondant concorreu ao Prêmio Paladar), os demais itens têm aquele sabor passadista que faz pensar: com novos ingredientes, novas técnicas, esse estilo ainda faz sentido? Certamente. É a convivência do antigo (que um dia foi novo) com o contemporâneo que compõe a história. Mas é imprescindível que esses pratos sejam gostosos, não apenas “representativos” – e eles são, ainda que tenham sido melhores.

Já era tarde e alguns casais jovens chegavam, baixando a média etária dos comensais. Seria a clientela do futuro? Quem sabe. Vincenzo Ondei dá uma informação importante. Na semana que vem ele vai trocar as fotos em preto e branco feitas por Trípoli por imagens de Paris. O Le Coq Hardy quer um reencontro consigo mesmo.

Le Coq Hardy
R. Jerônimo da Veiga, 461, Itaim-Bibi, 3079-3344
12h/15h e 19h/0h (sáb. só jantar, 19h/1h; fecha dom.)
Cartões: todos
Cardápio: cozinha francesa clássica, com pratos variados
Avaliação: para quem quer viajar no tempo (para o bem e para o mal)

Ficou com água na boca?