Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

Um galpão na Vila Leopoldina

10 novembro 2011 | 19:17 por Luiz Américo Camargo

Publicado no Paladar de 10/11/2011

Eu sei que, em São Paulo, não só a biologia é destino, mas a geografia também. As distâncias e o trânsito convergem para que, cada vez mais, a maioria trace seu roteiro de atividades fazendo escolhas locais, microrregionais. E há também a preguiça, o hábito, o suposto conforto de circular apenas em terreno conhecido. Mas não é chato ficar só nisso? Eu, particularmente, gosto quando tenho uma mudança de rota a propor. Desde que, citando o Guia Michelin, o programa “valha o desvio”.

Falando assim, parece que vou tratar de um endereço distante, mas não é. A Vila Leopoldina, onde fica o recém-aberto Mangiare, é apenas fora do eixo mais badalado. Um “falso longe”, um distrito ligado à Lapa que vem experimentando, talvez, o crescimento imobiliário mais vertiginoso da cidade – e ainda carece de bons lugares onde comer. O restaurante ocupa um enorme galpão reformado que já abrigou uma oficina de tratores. A pretensão dos proprietários, o casal Juliana e Benny Burattini Goldenberg, parece ser a de atender à crescente demanda local. Mas, no balanço final, o Mangiare compensa o passeio.

Na chegada, o primeiro impacto é com as instalações, que são muito amplas e destacam os tijolos e o madeiramento da construção original. Há também um empório e uma adega de vinhos. Já à mesa, logo é servido o couvert, com boa variedade de pães feitos na casa (R$ 9, incluindo água em jarra – este, felizmente, um hábito que está pegando). Assim como é extensa a oferta de conservas, tira-gostos, tudo já descrito na toalha de papel que serve de jogo americano… Uma espécie de angústia do excesso inicial – mas uma sensação que é atenuada pela cordialidade do serviço.

O cardápio ressalta uma orientação à italiana que, no entanto, não é calcada nas massas (há uma única opção, o maltagliati, com dois molhos), mas em sugestões que convidam a compartilhar. Vários pratos são feitos no forno a lenha, das carnes às pizzas. Entre as entradas, há porções como as polpetini (almôndegas, R$ 12) e os suplis (bolinhos de risoto, R$ 15), ambos com jeito mais caseiro que gastronômico – e com uma fritura um pouco menos seca do que deveria.

Eu provei coisas variadas, como a alcachofra cozida com farofa de aliche (uma sugestão do dia, R$ 35); a battuta de carne (crua, levemente condimentada e servida com cebola roxa, folhas de salsão, torradas, R$ 25); a bisteca suína feita no forno a lenha (R$ 40), acompanhada por batatas rústicas e aspargos (pedidos à parte). E a cozinha se saiu bem, de forma geral. Mas discordo da concepção de um prato, o maltagliati com ragu à bolonhesa (R$ 32), que é finalizado no forno e servido numa panela de ferro – que concentra calor e, ao longo dos minutos, acaba cozinhando a massa além do ideal.

Em resumo, há reparos a serem feitos, mas nada que não possa ser acertado. De resto, louve-se a política de manter uma carta de vinhos com vários itens abaixo dos R$ 50 e uma bem cuidada lista de cervejas artesanais brasileiras, também com preços acessíveis.

Por que este restaurante?
Porque é uma novidade interessante.

Vale?
Vale. Embora haja pratos de custo-benefício ruim, como o hambúrguer (R$ 40).

Mangiare
Av. Imperatriz Leopoldina, 681, Vila Leopoldina, 3034-5074 (150 lug.)
12h/16h e 20h/24h (fecha 2ª). Cc.: todos

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